Jogar Poker com o universo...
Ontem, enquanto jogava poker numa tasca aqui perto, fui presenciado com uma revelação divina! Só não gritei "Eureca" por não ser casado, por não estar enfiado numa banheira e por receio que pensassem que estava a fazer bluff.
A minha constatação foi simples: se todos os jogadores forem igualmente bons, todos terão a mesma probabilidade de ganhar quantia idêntica no final da noite. Portanto, se em dado momento algum deles estiver com demasiado azar, espera-se que venha a recuperar a sorte nos minutos seguintes, fazendo as pazes com a média estatística. Assim me ocorreu que, partindo desse princípio, talvez desse para ludibriar os meandros secretos do cosmos!
Ora vejamos: Se o jogador sentado na cadeira A está a ter mais azar que os restantes, troco de lugar com ele na altura certa e deverei, à partida, receber a sorte que a cadeira dele tem em défice, visto que, no final, tudo tende para o equilíbrio!! Conclusão: dá para correr atrás da sorte! Na verdade trata-se de uma intuição básica: O caro leitor tem uma moeda na mão e quer adivinhar se vai sair cara ou coroa. Dizem-lhe que nas cem vezes anteriores saiu coroa. Então, certamente irá confiar que sairá cara na vez seguinte, tendo em conta a enorme improbabilidade de que saia coroa 101 vezes seguidas! Pode dizer-se que o universo está, naquele preciso momento, potencialmente inclinado para a cara! Uma espécie de "atractor estranho"!... Ora, no Poker, pensei eu, deveria ser a mesma coisa!
Já passava das duas da manhã e o Frederico estava, desde o início da noite, a ter um azar de meter dó! Eu, em contrapartida, estava com um lucro simetricamente oposto! Tudo indicava que, a qualquer momento, ele deveria começar a recuperar e eu a levar no lombo! Portanto, nada mais simples! Bastava trocarmos de lugares e tudo se manteria intacto: Eu roubava-lhe a sorte a que ele tinha direito e ele roubava-me o azar que me era devido!
Foi fácil convencê-lo! Disse-lhe:
- Ó Frederico, esse teu lugar está amaldiçoado! Troca lá comigo que eu hoje estou mãos largas!
O tipo deu um salto da cadeira:
- És um bacano!!!
Dez segundos depois estávamos onde eu queria que estivéssemos, ambos de sorriso nos lábios, a manusear o mecanismo universal das probabilidades. Porém, qual não foi o meu espanto ao dar conta, a pouco e pouco, que a coisa afinal não estava a resultar: misteriosamente, eu comecei a ter azar e o Frederico a ter sorte.
Disse eu:
- Foda-se!
Disse ele:
- Obrigadão, pá!
Pus-me a pensar no que teria corrido mal! Não sou nenhum especialista em cálculo de probabilidades mas dei rapidamente conta de duas implicações importantes: em primeiro lugar tinha de haver um ponto de referência espacial a partir do qual se pudesse fazer a gestão da sorte! Quer dizer, eu tive em consideração os lugares onde estávamos sentados mas não me lembrei de ter em conta os próprios jogadores! Afinal o que é mais importante? O lugar do jogador ou o próprio jogador? Qual deles é que o universo tem em apreço ao fazer as contas? Será que leva ambos em igual conta? Terá o universo ficado confuso no momento em que trocámos de lugar? Terá ele equacionado alguma coisa deste género: "Bem, o Frederico merece ter sorte a partir de agora mas, em contrapartida, veio sentar-se num lugar que merece ter azar? Que se lixe, jogo aos dados e pronto!"...
Em segundo lugar, pensei que também deverá haver um ponto de referência temporal, uma espécie de memória do universo acerca do passado de cada objecto, capaz de condicionar o que lhe vai acontecer a seguir! Por exemplo, no caso da moeda, eu poderei esperar que saia cara por saber que saiu coroa nas 100 vezes anteriores, mas o universo pode querer que saia coroa por saber que, na história global daquela moeda particular, já saíram 100 vezes coroa mas 1000 vezes cara! Até onde vai a memória do universo? Será amnésico ou será que tem tudo apontado na caderneta? Terá ele levado em conta todos os jogos de poker em que eu e o Frederico já participámos conjuntamente, de forma a melhor sentenciar a sorte do jogo de ontem?
E o mais estranho é que tudo isto de que tenho vindo a falar - as moedas, os jogos de Poker, as cadeiras, os próprios jogadores - tudo isto não é mais que mera construção mental, só é ponto de referência na minha cabeça! O universo certamente não faz uso de conceitos específicos como "lugar do Frederico" enquanto calcula a média estatística! Mais um nó no cérebro!...
Enfim, depois de alguns minutos de devaneio, acabei por me render a esses desígnios inomináveis do cosmos e limitei-me ao poker. No final da noite perdi 20 euros...
A minha constatação foi simples: se todos os jogadores forem igualmente bons, todos terão a mesma probabilidade de ganhar quantia idêntica no final da noite. Portanto, se em dado momento algum deles estiver com demasiado azar, espera-se que venha a recuperar a sorte nos minutos seguintes, fazendo as pazes com a média estatística. Assim me ocorreu que, partindo desse princípio, talvez desse para ludibriar os meandros secretos do cosmos!
Ora vejamos: Se o jogador sentado na cadeira A está a ter mais azar que os restantes, troco de lugar com ele na altura certa e deverei, à partida, receber a sorte que a cadeira dele tem em défice, visto que, no final, tudo tende para o equilíbrio!! Conclusão: dá para correr atrás da sorte! Na verdade trata-se de uma intuição básica: O caro leitor tem uma moeda na mão e quer adivinhar se vai sair cara ou coroa. Dizem-lhe que nas cem vezes anteriores saiu coroa. Então, certamente irá confiar que sairá cara na vez seguinte, tendo em conta a enorme improbabilidade de que saia coroa 101 vezes seguidas! Pode dizer-se que o universo está, naquele preciso momento, potencialmente inclinado para a cara! Uma espécie de "atractor estranho"!... Ora, no Poker, pensei eu, deveria ser a mesma coisa!
Já passava das duas da manhã e o Frederico estava, desde o início da noite, a ter um azar de meter dó! Eu, em contrapartida, estava com um lucro simetricamente oposto! Tudo indicava que, a qualquer momento, ele deveria começar a recuperar e eu a levar no lombo! Portanto, nada mais simples! Bastava trocarmos de lugares e tudo se manteria intacto: Eu roubava-lhe a sorte a que ele tinha direito e ele roubava-me o azar que me era devido!
Foi fácil convencê-lo! Disse-lhe:
- Ó Frederico, esse teu lugar está amaldiçoado! Troca lá comigo que eu hoje estou mãos largas!
O tipo deu um salto da cadeira:
- És um bacano!!!
Dez segundos depois estávamos onde eu queria que estivéssemos, ambos de sorriso nos lábios, a manusear o mecanismo universal das probabilidades. Porém, qual não foi o meu espanto ao dar conta, a pouco e pouco, que a coisa afinal não estava a resultar: misteriosamente, eu comecei a ter azar e o Frederico a ter sorte.
Disse eu:
- Foda-se!
Disse ele:
- Obrigadão, pá!
Pus-me a pensar no que teria corrido mal! Não sou nenhum especialista em cálculo de probabilidades mas dei rapidamente conta de duas implicações importantes: em primeiro lugar tinha de haver um ponto de referência espacial a partir do qual se pudesse fazer a gestão da sorte! Quer dizer, eu tive em consideração os lugares onde estávamos sentados mas não me lembrei de ter em conta os próprios jogadores! Afinal o que é mais importante? O lugar do jogador ou o próprio jogador? Qual deles é que o universo tem em apreço ao fazer as contas? Será que leva ambos em igual conta? Terá o universo ficado confuso no momento em que trocámos de lugar? Terá ele equacionado alguma coisa deste género: "Bem, o Frederico merece ter sorte a partir de agora mas, em contrapartida, veio sentar-se num lugar que merece ter azar? Que se lixe, jogo aos dados e pronto!"...
Em segundo lugar, pensei que também deverá haver um ponto de referência temporal, uma espécie de memória do universo acerca do passado de cada objecto, capaz de condicionar o que lhe vai acontecer a seguir! Por exemplo, no caso da moeda, eu poderei esperar que saia cara por saber que saiu coroa nas 100 vezes anteriores, mas o universo pode querer que saia coroa por saber que, na história global daquela moeda particular, já saíram 100 vezes coroa mas 1000 vezes cara! Até onde vai a memória do universo? Será amnésico ou será que tem tudo apontado na caderneta? Terá ele levado em conta todos os jogos de poker em que eu e o Frederico já participámos conjuntamente, de forma a melhor sentenciar a sorte do jogo de ontem?
E o mais estranho é que tudo isto de que tenho vindo a falar - as moedas, os jogos de Poker, as cadeiras, os próprios jogadores - tudo isto não é mais que mera construção mental, só é ponto de referência na minha cabeça! O universo certamente não faz uso de conceitos específicos como "lugar do Frederico" enquanto calcula a média estatística! Mais um nó no cérebro!...
Enfim, depois de alguns minutos de devaneio, acabei por me render a esses desígnios inomináveis do cosmos e limitei-me ao poker. No final da noite perdi 20 euros...

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