O princípio antrópico
Não há princípio que me fascine tanto como o antrópico (a não confundir com entrópico – não é para aqui chamada a segunda lei da termodinâmica!). Ainda me recordo perfeitamente do dia em que tomei conhecimento deste princípio. Estava sentado num balcão de café a ler a secção de perguntas da revista Maria quando, inesperadamente, me saltou à vista a seguinte questão, colocada por um tal Elias H:
“Sou gay e sinto-me mal com isso, mas prezo muito a minha existência. Cara Maria, tento em conta o princípio antrópico, será que, se eu não fosse gay, ainda assim existiria?...”
A sexóloga respondeu à altura:
“Caro Elias, a sua pergunta pode ser lida de duas maneiras. Por um lado encerra em si mesma um grave paradoxo: repare que poderíamos reformulá-la do seguinte modo: “Será que, se eu fosse heterossexual, ainda assim teria nascido?”. Uma tal questão não passa de uma tautologia, e inviabiliza qualquer resposta que já não esteja contida na própria pergunta. Por outro lado, e tendo primordialmente em conta os desígnios do princípio antrópico, aquilo que lhe posso dizer é que o universo e todas as suas leis (que deverão reger, igualmente, a sua homossexualidade) são como são porque nós existimos. Teria bastado uma qualquer nuance mínima – por exemplo, uma diferente carga para o electrão, um omega diferente no momento da criação, uma ligeira discrepância em qualquer constante universal, até a própria eventualidade de o Elias ter nascido hetero – e eu já não estaria aqui a escrever esta carta ou você a lê-la. O princípio antrópico diz-nos que o mundo é como é porque nós existimos. Portanto, se preza a sua existência, sugiro-lhe que assuma a sua sexualidade de uma vez por todas. Cumprimentos da Maria.”
“Sou gay e sinto-me mal com isso, mas prezo muito a minha existência. Cara Maria, tento em conta o princípio antrópico, será que, se eu não fosse gay, ainda assim existiria?...”
A sexóloga respondeu à altura:
“Caro Elias, a sua pergunta pode ser lida de duas maneiras. Por um lado encerra em si mesma um grave paradoxo: repare que poderíamos reformulá-la do seguinte modo: “Será que, se eu fosse heterossexual, ainda assim teria nascido?”. Uma tal questão não passa de uma tautologia, e inviabiliza qualquer resposta que já não esteja contida na própria pergunta. Por outro lado, e tendo primordialmente em conta os desígnios do princípio antrópico, aquilo que lhe posso dizer é que o universo e todas as suas leis (que deverão reger, igualmente, a sua homossexualidade) são como são porque nós existimos. Teria bastado uma qualquer nuance mínima – por exemplo, uma diferente carga para o electrão, um omega diferente no momento da criação, uma ligeira discrepância em qualquer constante universal, até a própria eventualidade de o Elias ter nascido hetero – e eu já não estaria aqui a escrever esta carta ou você a lê-la. O princípio antrópico diz-nos que o mundo é como é porque nós existimos. Portanto, se preza a sua existência, sugiro-lhe que assuma a sua sexualidade de uma vez por todas. Cumprimentos da Maria.”

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