O Solipsista

Vamos lá ver se a filosofia se aguenta...

Nome: FYL

Sábado, Dezembro 20, 2003

Elogio às velocidades taquiónicas...

Acabei recentemente a leitura do livro do João Magueijo, “Mais rápido que a Luz”. E porra, o tipo é mesmo bom! Para quem não sabe, ele conseguiu o aparentemente impossível. Não me refiro, evidentemente, às manchetes de jornal que por aí andaram a felicitá-lo por cometer a heresia de pôr em causa a teoria da relatividade – toda a gente sabe que essa afirmação é um completo disparate (os editores dos jornais nunca foram lá muito inteligentes, pese embora a sua astúcia sensacionalista... um dia destes, por este rumo, aparece-me um título de jornal da pinta: “Escândalo: Em pleno século XXI ainda se usa a mecânica newtoniana para calcular o movimento de projécteis!”... ou “Casal de físicos transmontanos ainda usa termos como protão e neutrão!”)...
O que o compadre Magueijo conseguiu foi conciliar o aparentemente inconciliável, mormente a física teórica de ponta com a (até agora tida como fatal) nacionalidade portuguesa... é certo que ele fez alguma batota durante o processo: por exemplo, fugiu de Portugal. Mas quem poderá censurá-lo?
Outro aspecto em que é preciso aplaudi-lo é o seu estilo literário revolucionário. Nem Stephen Hawking – que tanto se gaba por ter vendido mais livros sobre física que a Madona vendeu sobre sexo – lhe chega aos calcanhares neste ponto. Propondo-se descrever a odisseia de investigação que o trouxe à sua teoria VSL, o Magueijo utiliza, em “Mais rápido que a Luz”, pausas frequentes para descrever as suas férias em Goa, as suas aventuras nos bares de Londres, o seu natal em Portugal... anexa fotos aqui e ali, algumas de colegas de profissão, uma outra da namorada; entre descrições lúcidas sobre problemas cosmológicos como o do horizonte ou da homogeneidade, vai confessando o seu desejo momentâneo de ir a um bar apanhar uma piela... enfim, uma delícia de livro!
Esforçando-se por seguir a máxima de Feynman: “vão-se todos lixar, eu faço o que me der na pinha e estou-me a cagar para o que vocês pensam!” (pág.183), Magueijo arrisca ainda títulos de capítulo como “Quando Deus estava speedado...”, fazendo lembrar, em ousadia e arrojo, os capítulos com que Nietzsche temperou o seu derradeiro “Ecce Homo”, intitulados “Porque sou tão sábio” ou “Porque escrevo tão bons livros”...
Deixo-vos então com alguns trechos deste livro fascinante que promete revolucionar não só as orientações da física como também as dos próprios físicos:
“Era com este humor sombrio que ia beber um copo ao fim do dia com a minha namorada, Kim, algures em Notting Hill. A essa hora sentia-me mal a ponto de querer desesperadamente tirar da cabeça todo esse esterco, fosse de que maneira fosse. De facto, à segunda cerveja, todos aqueles impressos sórdidos se escoavam pelo ânus do meu cérebro. Não é de estranhar que haja tanto alcoolismo na Grã-Bretanha (pág.157 - acerca das burocracias da instituição científica).
“Dito com toda a brutalidade, os chefes do Imperial gostam de se ver como chulos científicos, num contexto em que os cientistas fazem o papel de putas. (...) e no instante em que escrevo estão a cometer o mesmo erro com outro cientista, um teórico de cordas de renome mundial. As pessoas que querem ficar com todo o crédito por uma instituição de primeira só são, no meu entender, primeiras na merda (pág.218 - acerca da competição científica em geral)...
Uma vez mais: parabéns Magueijo...

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

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