O Solipsista

Vamos lá ver se a filosofia se aguenta...

Nome: FYL

Segunda-feira, Dezembro 08, 2003

Dois em um: As parideiras cósmicas e a dignidade humana...

Cap. I
A estratégia trans-disciplinar.


Uma das fantasias ou devaneios mais publicitados pelos relativistas epistémicos a propósito do método científico moderno centra-se na chamada trans-disciplinaridade. Pretendendo reformular o paradigma clássico que tão ingenuamente temos vindo a usar desde Newton e Descartes, os relativistas defendem uma nova nuance espistemológica que, basicamente, seja mais democrática. Indignados pelo positivismo, o reduccionismo, o cientismo, o determinismo, o mecanicismo, o fisicalismo... e outras tantas centenas de “ismos”, estes ilustres pensadores propõem, assim, através de uma retórica extremamente refinada – e apoiada em milhares de ismos alternativos que não os atrás referidos –, o verdadeiro e aclamado caminho da verdade, até agora impedido pelo dogmatismo (mais um “ismo”) dos cientistas ortodoxos (ou ortodoxistas, como queiram...).
Para uma ciência mais democrática, adopte-se então a trans-disciplinaridade! Muito resumidamente, trata-se de dar igual peso epistemológico e axiológico a todas as formas de conhecimento. Um cientista “trans-disciplinarista” deverá pensar da seguinte maneira:
“Os resultados das novas equações são extremamente pertinentes, mas contêm algumas dízimas de teor visivelmente comunista. Farei uma nova análise filológica do texto axiomático a fim de confirmar a inter-subjectividade deste tipo de partidarismo politico-geométrico, assumindo como sujeitos sociais e historicamente situados os próprios cálculos (instrumentos) e eu mesmo, e assumindo como objectos “exteriores” os resultados equacionais propriamente ditos. No final serei não só capaz de precisar as implicações lógico-matemáticas dos resultados como também os seus substratos emocionais e a relação “sujeito-objecto” que estabelecem comigo enquanto investigador de signo capricórnio com ascendente escorpião...”.


Cap. II
Contra a ciência ortodoxa – em busca da dignidade humana...

Infelizmente, a própria ciência tem dado um empurrão para que os adeptos da trans-disciplinaridade se convençam de que o seu paradigma está eminente: os maiores louros advêm-lhes dos chamados estudos da complexidade, que eles, por não compreenderem devidamente, fazem questão de extrapolar para todas as esferas do conhecimento, desde a botânica ao aconselhamento matrimonial. Este tipo de extrapolação é quase como um tipo perder o telemóvel pouco depois de se familiarizar com a incerteza de Heinsenberg e passar o resto do dia a procurar o dito cujo na mesma gaveta, abrindo-a e fechando-a interminavelmente à espera que as probabilidades fiquem a seu favor... uma mente ortodoxa, provavelmente, procuraria uma só vez em cada lugar (no meu caso, como sou muito despistado, não sou lá muito bom ortodoxo!).
O maior objectivo indirecto deste tipo de abordagem metodológica é o de restabelecer dignidade e dimensão humana ao homem. Aliás é compreensível o desespero dos relativistas epistémicos: em primeiro lugar a ciência convencional, com a sua hegemonia tirânica, canibaliza todas as outras formas de cultura e de racionalidade. E, de facto, se há coisa que passo a vida a ler no jornal é que biólogo tal fuzilou poeta tal ou que geólogo tal estrangulou impiedosamente cineasta tal, já para não falar da intimamente relacionada desconfiança de que Leonardo da Vinci era uma aberração hermafrodita!
Em segundo lugar, as verdades científicas são frias, cruas e desqualificam o homem, arrancam-no do pedestal e destituem-no de toda e qualquer dignidade. Nesse contexto, a inter e a trans-disciplinaridade mais não fazem que condimentar com carga espiritual e humana as verdades científicas. Um nadinha de antropocentrismo, multiculturalismo, esteticismo e misticismo não fará certamente mal a tais verdades, bem pelo contrário, até lhes confere cor e torna-as menos enfadonhas...


Cap. III
Um exemplo trans-disciplinar para a dignificação humana...

Um bom exemplo de trans-disciplinaridade é-nos oferecido por uma consequência possível do princípio antrópico, de que já falei num post recente a propósito da revista Maria. Ainda não tomei conhecimento de nenhum relativista pós-moderno que já se tenha apropriado deste caso particular para fortalecer os seus argumentos, mas, se ainda não os há, então não hão-de tardar!
Trata-se de uma (interessante) teoria cosmológica proposta por Lee Smolin para responder a algumas das implicações metafísicas do princípio antrópico forte. Segundo ele, pode ser que os buracos negros sejam “maternidades” de universos germinais com diferentes leis físicas. Assim, este universo pode ser visto como uma parideira assexuada que, por cada buraco negro que contém, dá origem a um universo descendente. Dos universos descendentes, por sua vez, só os que também contiverem buracos negros deverão deixar legado “cosmo-genético” e assim sucessivamente. Os universos mais aptos serão então aqueles cujas leis internas favoreçam maior descendência (ou maior número de buracos negros... quais vaginas celestiais, ainda por cima sorvedouras...).
A trans-disciplinaridade, neste caso, encontra-se na arrojada admissão, pela cosmologia, de preceitos darwinianos (tipicamente biológicos, portanto) para a sua lógica e refinamento próprios. Sem dúvida um cruzamento quase herético entre diferentes paradigmas... um autêntico santo graal para os pós-modernos.
A questão que coloco é a seguinte: de que forma a revolucionária e aplaudida teoria trans-disciplinar de Smolin contribui para restabelecer dignidade ao ser humano? Bem, arrisco-me a adiantar uma resposta: Desde Copérnico que a nossa cotação no panorama do cosmos tem vindo a baixar de forma dramática. De actores principais, colocados privilegiadamente no centro do universo, fomos sendo progressivamente relegados para os bastidores, e, agora, mais não somos que pó de estrelas à base de carbono, a que alguns já chamaram de agregados com forma de “macacos nús”. Uma condição indecorosa, sem dúvida! Por outro lado, esta nova teoria de Smolin argumenta que o carbono (de que somos feitos) é um ingrediente essencial para favorecer a existência de buracos negros, ao promover a transferência térmica dentro das protoestrelas (o que também justifica o princípio antrópico)...
Sendo assim, eis que já não somos mero pó de estrelas! Na verdade constituímos um precioso fertilizante cósmico, somos a modos que espermatozóides sidéreos! Digam lá que tal não é um pretexto monumental para a dignificação humana!...

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Cool blog, interesting information... Keep it UP Iodoral supplement samples of private investigator surveillance repor klonopin+half+life Indian hardcore amatuer Arizona state university webcam dorms Gto body kits Ford van roof racks Black stud sex Sex teen anal Amture lesbo Sl mercedes 107 http://www.phendimetrazine-online-6.info/Bellevillebullshockeyontariocanada.html

3:21 AM  

Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home