Conversa com o meu sobrinho acerca do Pai Natal...
O meu sobrinho Titinho ainda acredita no Pai natal. No entanto, ultimamente, talvez por já ter nove anos, começou a fazer perguntas estranhas. Desconfio que esteja a entrar numa crise de fé sem precedentes, o que me deixa extremamente preocupado, até porque já só faltam dois dias para a chegada das prendas.
Hoje, à mesa do almoço, encontrei o puto particularmente pensativo, a mastigar o peixe com a mesma alienação de quem come carne, a meter o arroz de feijão à boca com uma tranquilidade soturna, a não olhar para a televisão apesar dos anúncios, o puto calado e a portar-se bem, eu a perguntar “Titinho, que se passa contigo, pá?”, e ele a deitar-me um olhar de renúncia fúnebre, a mãe a inquirir “Tens a certeza que o feijão tá bom, filho?”, e ele a engolir a garfada com uma determinação nunca vista, todos à mesa a perderem o apetite, fixos no rapaz, incrédulos, e ele para mim:
"Tio solipsista, acreditas mesmo no pai natal?"
"Claro que sim!", disse eu.
"Mas há miúdos lá na escola que não acreditam."
"São uns ignorantes", afiancei, piscando-lhe um olho, "os teus colegas devem estar a referir-se aos Pais natal que aparecem na televisão! Esses são falsos, claro! O verdadeiro não se deixa corromper por contratos publicitários!"
"Mas, Tio Solipsista, não é verdade que o Pai natal se veste de vermelho por influência da Coca-cola? Isso faz-me pensar que ele não passa de um símbolo mercantilista ao serviço dos interesses consumistas da sociedade ocidental contemporânea..."
"Mas esse pormenor não invalida que o Pai natal exista como entidade autónoma. Também se vendem muitas t-shirts do Che Guevera e, todavia, ele existiu de facto!"
"Esse argumento não me chega, tio. Também o Bertrand Russell provou, por A mais B, que o Papa e ele eram a mesma pessoa, e, porém, todos sabemos que o Bertrand Russell era ateu! A mim não me basta essa tua retórica sofisticada, eu preciso de provas empíricas!"
"Em primeiro lugar, Titinho, nada te garante que o Papa não é ateu! Em segundo lugar, se é de provas que precisas, não te chegam os presentes que recebeste no ano passado?"
"São evidências demasiado indirectas. Como notaram Duhen e Quine, é sempre possível jogar com as provas e os dados de observação de modo a adequá-las à hipótese que se tenta provar! Portanto, nada me garante que não foste tu, fantasiado de Pai Natal, que trouxeste os presentes! Ou o avô, que é mais gordo!"
"Titinho, diz-me lá uma coisa, tu acreditas no Bill Clinton?"
"Acredito."
"Porquê?"
"Já o vi na televisão."
"Na televisão?! Mas já olhaste bem para dentro de uma televisão? São só electrões num tubo de raios catódicos!"
"Sei onde queres chegar, tio, mas isso não me chega! Preciso de verificação experimental."
"Qual verificação qual quê?", explodi eu, "Não me venhas com essas merdas do Círculo de Viena! A verificação que se foda!!!"
"Tens razão, tio, tava a esquecer-me da licção de Popper: Não posso verificar a existência do Pai natal mas, por outro lado, também não posso falsificar essa afirmação por não ser tratável cientificamente! Ora ai está: não é possível provar a existência do pai natal mas também não é possível provar a negação da sua existência! O Pai Natal não é cientificamente falsificável!! Isso para mim chega! Obrigado, tio solipsista! Espera lá... que merda é esta no meu prato?..."
Suspirámos todos de alívio e ternura: O titinho tinha voltado ao normal...
Hoje, à mesa do almoço, encontrei o puto particularmente pensativo, a mastigar o peixe com a mesma alienação de quem come carne, a meter o arroz de feijão à boca com uma tranquilidade soturna, a não olhar para a televisão apesar dos anúncios, o puto calado e a portar-se bem, eu a perguntar “Titinho, que se passa contigo, pá?”, e ele a deitar-me um olhar de renúncia fúnebre, a mãe a inquirir “Tens a certeza que o feijão tá bom, filho?”, e ele a engolir a garfada com uma determinação nunca vista, todos à mesa a perderem o apetite, fixos no rapaz, incrédulos, e ele para mim:
"Tio solipsista, acreditas mesmo no pai natal?"
"Claro que sim!", disse eu.
"Mas há miúdos lá na escola que não acreditam."
"São uns ignorantes", afiancei, piscando-lhe um olho, "os teus colegas devem estar a referir-se aos Pais natal que aparecem na televisão! Esses são falsos, claro! O verdadeiro não se deixa corromper por contratos publicitários!"
"Mas, Tio Solipsista, não é verdade que o Pai natal se veste de vermelho por influência da Coca-cola? Isso faz-me pensar que ele não passa de um símbolo mercantilista ao serviço dos interesses consumistas da sociedade ocidental contemporânea..."
"Mas esse pormenor não invalida que o Pai natal exista como entidade autónoma. Também se vendem muitas t-shirts do Che Guevera e, todavia, ele existiu de facto!"
"Esse argumento não me chega, tio. Também o Bertrand Russell provou, por A mais B, que o Papa e ele eram a mesma pessoa, e, porém, todos sabemos que o Bertrand Russell era ateu! A mim não me basta essa tua retórica sofisticada, eu preciso de provas empíricas!"
"Em primeiro lugar, Titinho, nada te garante que o Papa não é ateu! Em segundo lugar, se é de provas que precisas, não te chegam os presentes que recebeste no ano passado?"
"São evidências demasiado indirectas. Como notaram Duhen e Quine, é sempre possível jogar com as provas e os dados de observação de modo a adequá-las à hipótese que se tenta provar! Portanto, nada me garante que não foste tu, fantasiado de Pai Natal, que trouxeste os presentes! Ou o avô, que é mais gordo!"
"Titinho, diz-me lá uma coisa, tu acreditas no Bill Clinton?"
"Acredito."
"Porquê?"
"Já o vi na televisão."
"Na televisão?! Mas já olhaste bem para dentro de uma televisão? São só electrões num tubo de raios catódicos!"
"Sei onde queres chegar, tio, mas isso não me chega! Preciso de verificação experimental."
"Qual verificação qual quê?", explodi eu, "Não me venhas com essas merdas do Círculo de Viena! A verificação que se foda!!!"
"Tens razão, tio, tava a esquecer-me da licção de Popper: Não posso verificar a existência do Pai natal mas, por outro lado, também não posso falsificar essa afirmação por não ser tratável cientificamente! Ora ai está: não é possível provar a existência do pai natal mas também não é possível provar a negação da sua existência! O Pai Natal não é cientificamente falsificável!! Isso para mim chega! Obrigado, tio solipsista! Espera lá... que merda é esta no meu prato?..."
Suspirámos todos de alívio e ternura: O titinho tinha voltado ao normal...

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