O Solipsista

Vamos lá ver se a filosofia se aguenta...

Nome: FYL

Sábado, Outubro 04, 2003

Do meu diário nos tempos de estudante de física (a pior fase)

10/10/96
Caro Ptolomeu:
O problema da física quântica é que pura e simplesmente não faz sentido. Quer dizer, tudo indica que esteja correcta (pelo menos o meu computador funciona às vezes); o problema é que ainda ninguém conseguiu realmente enfiá-la na cabeça. É um pouco como um burro a olhar para o palácio. Talvez nos reste seguir o conselho do Feynman (um gajo porreiro) e engolir a natureza como ela realmente é: absurda...
11/10/96
Caro Ptolomeu:
Ultimamente tenho andado a entreter-me com estas questões e, por mais burro que me sinta, não me rendo ao palácio! Há muito por onde pegar na abordagem a estes conceitos demasiado pesados para o cérebro humano. Vai-me valendo a matemática; pelo menos nos números, mesmo não compreendendo intuitivamente o significado dos resultados, posso ainda assim partir do princípio que estão certos, desde que use calculadora e respeite os limites lógicos deduzidos por Godel, esse grande desmancha prazeres. Bem feito o que lhe aconteceu: morreu à fome com medo de ser envenenado! Nem o John Nash lhe chega aos calcanhares!!
12/10/96
Caro Ptolomeu:
Os últimos dias têm sido dolorosos: páginas e páginas de equações: Hoje, pela primeira vez, larguei a álgebra por alguns momentos e aventurei-me na topologia mas ainda não consegui provar que o universo tem a forma de um donut. O problema está nas dimensões adicionais: em 10 dimensões os donuts são indigestos....
13/10/96
Caro Ptolomeu:
Acho que consegui provar que a física quântica e a teoria da relatividade são comutáveis: Uma é demasiado relativa e a outra demasiado incerta... ou vice-versa. Vou desenvolver este raciocínio para conciliar a força da gravidade com a força electro-fraca. O Weinberg vai ficar contente...
14/10/96
Caro Ptolomeu:
A teoria M é um beco sem saída. As VSL é que estão a dar. Parabéns Magueijo!! C é variável mas, evidentemente, a inflação mantém-se, pelo menos no que respeita ao preço do tabaco. Últimos dados do COBE são decisivos para novas conclusões. Já pressinto a TOE nas minhas mãos. OVER.
15/10/96
Caro Ptolomeu:
Os últimos dados deram para o torto. Não pesco nada. De supercordas só mesmo a do meu companheiro de quarto que apareceu enforcado esta manhã. Sei que andou a ler os meus apontamentos mas não me sinto responsabilizado...
16/10/96
Caro Ptolomeu:
Hoje comecei a meditar sobre a experiência da dupla fenda de Young. Consegui arranjar uma pressão de ar e o meu quarto tem, de facto, duas janelas, mas não consigo fazer com que as balas se comportem como ondas. Por consequência, não saem nem por uma janela nem pela outra. A vantagem deste resultado é que não parti nenhum vidro. A parede arranja-se com um bocado de estuque.
17/10/96
Caro Ptolomeu:
Tem-me fascinado particularmente o problema do gato de Schrodinger. A minha questão prende-se com a possibilidade de criar estados de sobreposição quântica no ser humano. Estou a trabalhar numa experiência em que eu próprio servirei de cobaia. Já arranjei um caixote suficientemente grande; agora só me falta a ganza e um cúmplice para pôr a experiência em prática.
18/10/96
Caro Ptolomeu:
O meu amigo Frederico ofereceu-se como ajudante. E ofereceu-me um cú de sabonete bem generoso. Portanto, eis a minha ideia: esta noite vou fumar ganza suficiente para que haja exactamente cinquenta por cento de hipóteses de sobreviver. A seguir fecho-me no caixote e logo se vê o que acontece... se os meus cálculos estiverem correctos, o meu cogito transformar-se-á numa função de onda e espalhar-se-á por todas as histórias possíveis do cosmos. Enquanto ninguém abrir a caixa, estarei vivo em alguns universos, morto noutros tantos, e há-de haver alguns em que serei milionário. Até sempre...
25/10/96
Caro Copérnico:
A experiência não correu como eu esperava: Enfiei-me lá dentro e acendi o charuto como previsto, mas a dada altura perdi a consciência e não me lembro de mais nada. Acordei hoje, sobressaltado, quando o Frederico abriu o caixote. A questão que se coloca é: terei eu deixado de existir enquanto a caixa estava fechada? O enigma mantém-se.
26/10/96
Caro Ptolomeu:
Por favor, perdoa-me aquilo que te chamei ontem! Deve ter sido da ressaca. É lógico que o modelo heliocêntrico está errado...

3 Comments:

Anonymous Anónimo said...

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Anonymous Anónimo said...

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