O Solipsista

Vamos lá ver se a filosofia se aguenta...

Nome: FYL

Terça-feira, Setembro 23, 2003

O propósito da filosofia desde que Nietzsche deu em louco

Porventura já terá o leitor notado como este blog se debruça com heroísmo nos inóspitos meandros da filosofia da treta. É uma empresa difícil, claro está, na medida em que o ramo já não é o que era... Dirão alguns que a culpa deste défice se deve à hegemonia da ciência... e eu próprio sinto isso na pele constantemente: por exemplo, esta manhã, sentado na retrete, senti um impulso irresistível para filosofar sobre o meu dentífrico, mas logo desisti perante a tão impenetrável discriminação da composição química do produto. A mim, como ao comum dos mortais, só me resta lavar os dentes...
Muito sumariamente, pode dizer-se que é exactamente esse sintoma que transparece nos escritos dos grandes contemporâneos. Tanta retórica, tanto jargão, tanta baboseira, para dissimular a mais temível das constatações: o rei vai nu.
Assim, para escrever um livro de filosofia na contemporaneidade, basta seguir os seguintes passos:
1 – Não ter presente uma ideia precisa e clara! Isso seria fatal, pois ficaria a descoberto a superfluidade da mensagem. Jacques Derrida, por exemplo, tem-se safado por partir exactamente desse pressuposto: Para quê haver um sentido objectivo numa tese se ela esta condenada à “desconstrução” por parte do leitor? Mais valerá mantê-la obscura à priori, para que outros lhe possam, natural e livremente, restituir o almejado sentido profundo que ela não tem...
2 – Misturar argumentos de outros filósofos. Fazendo uso de uma caldeirada de citações, estamos, por um lado, a afirmar o estatuto erudito, e, por outro lado, a engrossar de palha a nossa própria argumentação. Assim, obtém-se um calhamaço de respeito que constituirá prova modesta e merecida da nossa divina sapiência. E tudo isso, evidentemente, sem que seja necessário fazer uso das nossas próprias ideias!!
3 – Não aderir a nenhum método particular de trabalho! O ideal seria argumentar da forma mais ecléctica e anárquica possível – ainda que não sem a justa subtileza a que assistem os dois passos anteriores. Um pouco como nos aconselha o nosso querido Feyerabend: “Vale tudo!”.
4 – No início de cada capítulo, há que colocar uma citação de um qualquer marmanjo bem conhecido e creditado. Desse modo, crédito imediato será também dado à diarreia que se seguir. Por exemplo, se se quiser filosofar sobre o clima, basta referir o seguinte dito de Stephen Hawking: “O tempo tem a forma de uma pêra” (sem esquecer, claro, a devida referência bibliográfica).
5 – No final, pedir a um grande nome que prepare o prefácio! Que teria sido de Walter Benjamim sem as introduções de Adorno?!
6 – A última grande medida tem a ver com a capa. Qual a melhor ilustração num livro de filosofia? Das duas uma: ou não se põe nenhuma, e aí são bem merecidos os aplausos pela falta de presunção e pela fidelidade ao conteúdo; ou então coloca-se uma foto de uma obra de arte que seja popular nos circuitos mais eruditos. Deixo aqui uma sugestão: E que tal o urinol do Duchamp? Decerto corresponderá na perfeição a quaisquer conteúdos literários do âmbito filosófico, seja por ser um “ready made” ou seja na sua acepção literal, tanto faz...

3 Comments:

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