Em honra de Dioniso
Esta noite sonhei que corria o ano 400 a.C. e festejava-se o feriado nacional de São Baco. Estávamos dentro de um templo jónico com opulentas imagens femininas esculpidas nas colunas, todos nus, eu, o Fedro, o Agatão, o Erixímaco, o Aristodemo, o Aristófanes, o Sócrates, o Pausânias, o Alcibíades e mais de uma dúzia de putas contratadas. Alguém tinha sugerido no início da noite que se fizesse uma bacante (vulga orgia) e todos concordaram. “Viva Dioniso!”, berrava-se em coro pelo átrio, “Viva!!”.
Já ia alta a noite e as putas, encostadas a um canto, começaram a estranhar a indiferença do pessoal: o Agatão e o Aristodemo, inclinados para os respectivos vomitórios talhados em granito, expulsavam o vinho em golfadas abundantes, competindo para ver quem os enchia primeiro; depois, já besuntados, beijavam-se por momentos, empanturravam-se novamente de néctar dos deuses e recomeçavam o campeonato. O Aristófanes, às tantas, aproximou-se respeitosamente das senhoras, fez-lhes uma vénia, apanhou uma pedra lascada do chão e começou a auto-mutilar-se violentamente defronte delas, tentando dividir-se literalmente em dois para provar-lhes a sua teoria sobre a misogenia. O Fedro e o Erixímaco puxavam para si o pau do Pausânias, ansiosos por comprovarem a bela reputação de sodomista deste último. O Sócrates e o Alcibíades, entretanto, repousavam ébrios, longe dos restantes... notava-se-lhes uma intimidade mais séria. Não consegui apurar o que diziam, mas reconheci Platão a espiá-los por trás de uma moita, portanto presumo que terão tido a mesma conversa que vem relatada no "Banquete":
Alcibíades: “Sócrates, estás a dormir?”
Sócrates: “De maneira nenhuma...”
Alcibíades: “Sabes em que estou a pensar?”
Sócrates: “Em quê?”
Alcibíades: “Que só tu és digno de estar enamorado de mim e, contudo, parece que tens medo que eu me aperceba disso. Mas vê bem como eu sou: consideraria completamente idiota não te dar prazer neste domínio, como em todos os outros...”
Quanto a mim, só não fiquei com as putas porque, entretanto, o despertador...
Já ia alta a noite e as putas, encostadas a um canto, começaram a estranhar a indiferença do pessoal: o Agatão e o Aristodemo, inclinados para os respectivos vomitórios talhados em granito, expulsavam o vinho em golfadas abundantes, competindo para ver quem os enchia primeiro; depois, já besuntados, beijavam-se por momentos, empanturravam-se novamente de néctar dos deuses e recomeçavam o campeonato. O Aristófanes, às tantas, aproximou-se respeitosamente das senhoras, fez-lhes uma vénia, apanhou uma pedra lascada do chão e começou a auto-mutilar-se violentamente defronte delas, tentando dividir-se literalmente em dois para provar-lhes a sua teoria sobre a misogenia. O Fedro e o Erixímaco puxavam para si o pau do Pausânias, ansiosos por comprovarem a bela reputação de sodomista deste último. O Sócrates e o Alcibíades, entretanto, repousavam ébrios, longe dos restantes... notava-se-lhes uma intimidade mais séria. Não consegui apurar o que diziam, mas reconheci Platão a espiá-los por trás de uma moita, portanto presumo que terão tido a mesma conversa que vem relatada no "Banquete":
Alcibíades: “Sócrates, estás a dormir?”
Sócrates: “De maneira nenhuma...”
Alcibíades: “Sabes em que estou a pensar?”
Sócrates: “Em quê?”
Alcibíades: “Que só tu és digno de estar enamorado de mim e, contudo, parece que tens medo que eu me aperceba disso. Mas vê bem como eu sou: consideraria completamente idiota não te dar prazer neste domínio, como em todos os outros...”
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