O Solipsista

Vamos lá ver se a filosofia se aguenta...

segunda-feira, outubro 17, 2005

Por que razão a filosofia e a prostituição (não) são a mesma coisa?...

Perguntaram-me se a filosofia e as putas são a mesma coisa. Uma pergunta difícil mas pertinente. Começa actualmente a tornar-se evidente que é justamente deste tipo de questões que deve tratar a epistemologia. Toda a teoria do conhecimento que aspire a uma boa demarcação epistémica deverá definir-se através de metáforas deste género, metáforas que possam ser entendidas pelo “senso comum” da população em geral. Aliás, o próprio uso do conceito de metáfora já é ele próprio metafórico, pois, em boa verdade, as fusões entre discursos revelam-se quase sempre literais nos dias que correm. E repare-se que, ao afirmar tudo isto, não estou a constatar nada de novo: O pós-modernismo é, todo ele, uma manifestação desta tendência transdisciplinar. Combate-se a especialização técnica... combate-se a hegemonia social dos discursos... esbatem-se as antinomias e as dicotomias... proclama-se que tudo é manifestação do mesmo... enfim...
Pois então vejamos: Putas e filosofia... onde poderemos nós encontrar a tal transversalidade entre estas duas modalidades? Ou, invertendo a questão, onde estão afinal as diferenças?
Antes de mais, constata-se que são ambas modalidades de negociação de um valor social... no primeiro caso, o sexo... no segundo caso, as ideias. Haverá então diferença entre sexo e ideias? É claro que existe a ideia do sexo, assim como também há sexo com ideias – os exemplos seriam imensos – mas isto não responde à nossa questão. Também há bom e mau sexo, e alguns pensadores continuam a acreditar que há boas e más ideias... mas não são ainda similitudes que nos satisfaçam.
Finalmente, restam ainda os objectivos de cada uma destas modalidades. Qual é o objectivo do sexo? E o das ideias? Pelo menos no caso do sexo a resposta é evidente: o prazer. Mas será também esse o objectivo das ideias? Há gente que gosta de pensar que sim. Conheço uma data de filósofos convencidos de que filosofam pelo simples prazer de filosofar. Claro que esses não são verdadeiros filósofos... são meros indivíduos com fraca inteligência intrapessoal.
Na verdade, o objectivo das ideias é justamente, precisamente, o sexo! Repare-se uma vez mais que também esta afirmação não é nova. Já Darwin tinha compreendido que a maior arma de pavoneamento do humano é o intelecto. Por outras palavras, as tipas em geral gostam de gajos inteligentes! (Não sei se me atrevo a afirmar o inverso...)
Ou seja, o objectivo das ideias – e, por arrasto, também da filosofia – será o sexo, e o objectivo do sexo, esse sim, será o prazer. Filosofia – sexo – prazer. Eis a sequência do dominó.
Conclusões:
(1) O sexo é o que resta da filosofia quando reduzimos esta última à sua máxima pureza.
(2) Os filósofos são burocratas do prazer.
(3) A prostituição é filosofia sem tangas...
(4) Prostituição e filosofia, no contexto alargado da pulsão humana, fazem parte da mesma hierarquia. Simplesmente, a prostituição arreda caminho.
(5) Os filósofos gostam de putas.

segunda-feira, outubro 10, 2005

Resposta às perguntas mais frequentes durante a minha ausência de dois anos...


P: Caro Solipsista, o que nasceu primeiro? O ovo ou a galinha?
R: O ovo. Um dia destes explico porquê.

P: Caro Solipsista, por que razão existe um cosmos em vez de não existir nada?
R: Toda a gente sabe que ninguém sabe!

P: Caro Solipsista, por que razão mudou o template do seu blog?
R: O meu anterior template era cor de laranja, e eu não quero confusões em tempo de eleições autárquicas.

P: Caro Solipsista, qual é o sentido da vida?
R: A libido.

P: Caro Solipsista, por que razão esteve tanto tempo ausente?
R: Duas razões: Em primeiro lugar, estive ocupado. Em segundo lugar, tratou-se de uma celebração pessoal do centenário do Annus Mirabilis. E resultou! O pessoal não pára de dizer “Há quanto tempo!!”. Já agora acrescento: Isso é relativo!

Sobre paradoxos

O maior toque divino da filosofia está sem dúvida nos paradoxos. Se for verdade que a lógica é o maior reduto humano do conhecimento, então os paradoxos – que podem ser descritos como contradições lógicas obtidas por via lógica (outro paradoxo) – constituirão, enfim, a mais remota fronteira do conhecimento, o limiar supremo, o momento onde a insanidade divina aparece desmascarada...
Eu, pessoalmente, adoro paradoxos. Alguns são terríveis. Godel, por exemplo, encontrou um que deu cabo da “consistência da aritmética” e quase provocou enfartes colectivos na horda dos matemáticos e filósofos dos inícios do século passado. Russell e Hilbert nunca chegaram a recuperar dessa machadada... e o próprio Godel parece ter enlouquecido, visto que, pelo que consta, morreu à fome com medo de ser envenenado...
Mas há paradoxos mais suaves, alguns até estéticos, como no caso dos desenhos do Mauris Escher. Adoro esse fulano. Vá lá que não deu em arquitecto...
Já os gregos adoravam paradoxos. Era de ver o pensador cretense Epiménides a bradar aos céus: “Todos os cretenses são mentirosos”, e a deixar atónitas as populações confundidas daquela cidade.
Um paradoxo que gosto particularmente de exibir por aí é este que trago na minha T-Shirt. Na parte da frente diz: “A frase na parte de trás é falsa” e na parte de trás diz: “A frase na parte da frente é verdadeira”. Impressionam-se mais gajas com uma t-shirt destas vestida que a ler-lhes o futuro na palma das mãos. Ficam a modos que numa espécie de limbo semi-hipnótico, completamente à mercê....
Mas o maior paradoxo de todos os tempos ouvi-o hoje, confidenciado por uma amiga (e note-se como se trata, de facto, de um paradoxo): Contou-me ela que saiu com um tipo de tal modo perfeito que a levou a pensar o seguinte: “Para um gajo destes sair com uma gaja como eu, é porque deve haver qualquer coisa de muito errado com ele.” E, sem mais explicações, deixou-o pendurado e foi-se embora sem remorsos...
Mastiguem lá este paradoxo!...

domingo, outubro 09, 2005

Remate de uma discussão antiga...

Os meus últimos dois posts - antes do meu retiro de quase dois anos - deram origem a uma daquelas discussões de se lhes tirar o chapéu. A discussão decorreu durante algum tempo através dos comentários deixados neste blog por alguns dos meus leitores. A partir de dada altura, tornou-se claro que tais comentários já não se destinavam a mim, eram pura discussão independente, tendo este blog acabado por servir de arena.
Mesmo após eu ter tirado as minhas conclusões (e mais uma vez agradeço ao Perplexo e ao Pedro N pelos inteligentes esclarecimentos e pela sintonia ao longo da afronta), mesmo depois disso, as dúvidas mantiveram-se e proliferaram como uma epidemia. Até aquilo que para mim era certo desde o início – o curioso fenómeno estatístico conhecido por problema de Monty Hall –, e que serviu aliás como catapulta para o patamar realmente intrigante da discussão, até isso já começava a ser posto em causa por terceiros. O que foi bom! Desse modo conjugou-se o lado intelectual do problema com o lado hilariante do mesmo.
Infelizmente, com o tempo, tais comentários desapareceram do blog (não faço ideia como) e o debate acabou por ficar esquecido. Mas eis as boas notícias: Homem prevenido vale por dois, e prevenção, nestas andanças da blogosfera, significa backup.
Deixo-vos então - como remate definitivo do tema -, um apanhado dos pontos altos da discussão (nem sempre didáctica) que aqui decorreu através dos comentários aos meus dois posts anteriores. Riam-se...
Já agora, para aqueles que notaram a minha ausência, olá de novo...


Perplexo:
É muito interessante. O que parece óbvio numa apreciação superficial, não é afinal realidade. Se o apresentador descartasse 1 porta aleatoriamente, umas vezes eliminaria uma porta premiada, outras vezes uma porta não premiada. Não adiantaria ao concorrente mudar de palpite: a probabilidade de acertar continuaria a ser de 1/3. Mas o apresentador ao eliminar apenas portas perdedoras, só está a confirmar o que já se sabia - que nas 2 onde manda, pelo menos 1 é perdedora. Ao eliminá-la, a porta restante «herda» a probabilidade da porta descartada: sabia-se que as 2 portas tinham em conjunto 2/3 da probabilidade - a «herdeira» mantém esses 2/3. O exemplo dum milhão de hipóteses em vez de 3 (no site), é elucidativo e revelador. Tenho a noção que não fui claro, embora a questão se me tenha tornado clara.

Solipsista
Mas eu coloco a seguinte possibilidade: o concorrente número 1 escolhe a porta B. Seguidamente, a porta C é descartada. A partir desse momento, há 1/3 de hipóteses de o carro estar em B e 2/3 de hipóteses de estar em A. Pronto, até aqui tudo bem. Nisto, o concorrente número 1 tem um enfarte e cai morto em pleno palco. Mas os produtores do programa resolvem continuar a sessão, indo buscar um novo concorrente à rua. Para se poupar tempo, o concurso prossegue a partir do momento em que fora interrompido. Este novo concorrente não é informado do que se passou antes da sua chegada. Depara-se com duas portas, A e B. Tem de fazer uma escolha. E a minha questão é: será que, para ele - que não sabe do que se passou antes - se mantém a vantagem da porta A ou será que, agora, vigora a regra dos 50/50? Melhor ainda: De repente, todas as testemunhas sofrem de uma amnésia, excepto uma, que começa a berrar da plateia que a porta A é melhor! Será que alguém a levaria a sério?...

Pedro N:
O problema de Monty Hall refere a probabilidade condicional de um evento ocorrer se um outro evento (neste caso, não independente) já tiver ocorrido. Na continuação do teu exemplo, para o 2º concorrente as probabilidades seriam de 50% porque ele não possui a informação que detinha o 1º concorrente.

Solipsista
... entretanto, ainda antes de o segundo concorrente se decidir por uma escolha, o primeiro concorrente recupera, milagrosamente, a consciência (e a memória), e retoma o jogo onde o deixara. Estão os dois concorrentes lado a lado, frente às duas portas, A e B... Ora, parece-me estranhíssimo que, para um deles, haja 1/2 de hipóteses de o carro estar em A e, para o outro, haja 1/3 de hipóteses de o carro estar nessa mesma porta. As probabilidades não deviam ser universais para todos os observadores? Logicamente, podemos invocar o teorema de Bayes e explicar o fenómeno através das probabilidades condicionais determinadas pela história anterior do primeiro jogador. Mas, na prática, parece-me persistir aqui um paradoxo qualquer: Se, por exemplo, o jogador que recupera a consciência não se lembrar do que se passou antes, ao escolher uma porta não estará a passar por cima das probabilidades condicionais? Terá a memória do seu próprio passado alguma interferência? Das duas umas: ou esta é uma questão completamente absurda ou então há aqui, de facto, uma pitada de esoterismo!!...

Perplexo:
A meu ver, o conjunto final é resultado duma história anterior. A porta A tem 1/3 de probabilidade vencedora, a porta B - 2/3 e a porta C - 0. Qualquer interveniente não informado pensa que cada porta restante tem 1/2, embora a porta A tenha 2/3. Não dispõe de informação privilegiada. Para o apresentador que tem toda a informação, uma tem 100% e as outras 0%. Não me parece haver contradição. Quem tem mais informação, tem vantagem. Como no poker. Mas não deixei de suspeitar que levando isto às últimas consequências, poderemos desembocar num determinismo qualquer.

Pedro N:
As probabidades sao medidas da nosssa ignorância. Quanto mais informação menor é a incerteza. Como disseram, se eu for o apresentador, o problema não tem probabilidades associadas, ou se quiserem, uma porta é a 100%, as outras a 0%.

Perplexo
Aprofundando: a probabilidade não é a realidade. A realidade é que a porta (tal) é premiada e as outras não. A probabilidade é uma medida aproximativa da certeza que cada observador tem e que varia com a informação. A maior aproximação à realidade reflecte a maior informação verdadeira de que o observador dispõe. A probabilidade é pessoal. O próprio apresentador, que pensava que tinha 100% de informação verdadeira e que por isso a porta (tal) tinha 100% de probabilidade ganhadora, se pode enganar, se entretanto o produtor tiver mudado o carro de porta, sem o avisar. Só para um Deus omnisciente que não admita livre-arbítrio autêntico, não faz sentido falar de probabilidades. Ele sabe.

Henrique:
Que discussão interessante de que só me dei conta agora. Apesar de a minha estatística já ir longe, reconheço tratar-se de probalidade condicional. Mas vou pensar melhor no assunto, porque vejo que pode ter algo de metafísico (estado que antecede a física), donde a sua enorme utilidade para a ciência. É uma pré-intuição da realidade e explica-os, à sua maneira claro.

Solipsista:
Os últimos argumentos do Perplexo e do Pedro N foram, para mim, decisivos. O meu obrigado pelos seus esclarecimentos (e pela clareza e simplicidade com que souberam expô-los).

Bom Selvagem:
Muitos rodeios para abordar o dilema do Monty Hall que dá sempre azo às explicações mais cómicas interpretando incorrectamente o teorema de Bayes, das probabilidades à priori (condicionais). A probabilidade de ganhar é 50% porque o apresentador lhe dá uma 2ª escolha. Senão seria 1/3. Nunca 2/3, para efeitos de tomadas de decisão. Sempre. Façam uma simulação.

Pedro N:
Caro Bom Selvagem, as suas referências ao Bayes e aos condicionais são as melhores, mas a conclusão está errada. O jogador tem 2/3 de acertar aceitando a proposta do apresentador. Disso não há qualquer duvida. Basta seguir o link deste post que o nosso Solipsista referiu.

Solipsista:
Para acabar com as dúvidas: As probabilidades são ilusões psicológicas, artimanhas matemáticas para medirmos o nossa grau de ignorância. Na realidade (como não estamos a falar de gatos de Schrodinger ou de teorias quânticas alternativas à interpretação de Copenhaga), o carro está realmente por trás de uma porta. Quem souber qual a porta correcta tem 100% de hipóteses de acertar. Quem estiver na plena ignorância tem ½ de hipóteses perante duas portas. E no caso particular do problema de Monty Hall, o concorrente goza de alguma informação adicional que lhe permite considerar que uma das duas portas tem 2/3. Caso encerrado... A minha confusão inicial, que está indirectamente relacionada com o problema de Monty Hall, fora a seguinte: Qual é a probabilidade de saírem 101 caras seguidas? Decerto muito mais escassa que a de sair uma cara isolada. Não terá então alguma lógica pensar que, tendo eu a informação das 100 caras anteriores, e levando em conta a improbabilidade das 101 caras seguidas, seja mais prudente escolher coroa no 101º lance? A questão aqui é ligeiramente diferente porque a moeda, ao contrário do carro, ainda não é nem coroa nem cara... mas julgo que a resposta já foi dada atrás de forma satisfatória... ou não!

Pedro N
A probabilidade de o 101º lançamento dar cara é de 1/2. A probabilidade de saírem 101 caras seguidas é de 1 sobre (2 elevado a 101).

Daigoro
Desculpem lá a minha visão extrema (será?), mas não acho que a probabilidade seja 2/3. Acho que é de 1/2 porque são dois acontecimentos isolados. Não acho que exista "herança" de probabilidades, pelo menos, não neste caso. Um acontecimento não influencia o outro, tal como lançar uma vez uma moeda, não influencia a vez seguinte de lançar a moeda. Uma das primeiras noções de probabilidades é a de "unicidade de um acontecimento". Neste problema estamos a falar de 2 acontecimentos isolados. 1º, a probalidade é de 1/3. Depois é de 1/2. Tenho dito.
Depois de muitas voltas na cama e uns rabiscos, concluí sobre o assunto. É verdade que são 2 acontecimentos separados. Se os quisermos juntar, teremos de ter em conta a probabilidade de o concorrente mudar e temos também de aceitar como UM ACONTECIMENTO, o facto de o concorrente ESCOLHER A 1ª PORTA E DEPOIS MUDAR OU NÃO DE OPINIÃO. Posto isto, o nº de casos possíveis é 3x2=6, ou seja, 3 portas ao início e depois, mudar ou não de opinião. Os casos possíveis são: - escolher A e NÃO MUDAR de opinião;+ escolher A e MUDAR de opinião; + escolher B e NÃO MUDAR de opinião;- escolher B e MUDAR de opinião; - escolher C e NÃO MUDAR de opinião;+ escolher C e MUDAR de opinião. Se, por exemplo, o prémio estiver na porta B, as hipóteses que acertam estão assinaladas com um "+" e as outras com um "-". Com uma simples contagem vê-se que temos metade das possibilidades de acertar (1/2). Ora, a questão não é esta! a questão é, será que mudar favorece? Parece que sim: contando aquelas em que se muda E se acerta são 2 em 3 contra 1 em 3 onde não se muda E se acerta. Os tais 2/3 contra 1/3. O que não faz sentido fazer, é separar os 2 acontecimentos para o cálculo da probabilidade de acertar. digamos que para ser favorável mudar, é preciso falhar na primeira escolha. Concluindo, isto só acontece porque se tem de considerar um "acontecimento", o facto de se fazer a 1ª escolha e depois mudar ou não. Para aquele concorrente que chega depois sem saber da 1ªescolha, não é favorável mudar pq se trata de um acontecimento independente e diferente. Não é uma questão de memória do universo nem de misticismo. São só números que são muito exigentes e variam conforme as premissas. Os números, eles sim, eles sabem.

Bom Selvagem
Não há paradoxo no problema de Monty Hall. A minha formação universitária de base é matemática e estudei aprofundadamente estatística e probabilidades. Mas aqui o que é preciso é lógica, mais do que probabilidades. Este problema assenta num erro de interpretação do enunciado do mesmo. É que no momento da 2ª escolha, é errado pensar que se ele MANTIVER a porta que escolheu não está de facto a tomar uma nova decisão, como se o facto de o apresentador lhe mostrar outra porta não trouxesse nova informação à escolha inicial. Está, com 50% de chances de ganhar. A probabilidade de ele ganhar, no início do jogo, é sempre de 50% contando que o apresentador lhe vai revelar uma porta sem prémio, nem sequer vale a pena pensar em 1/3's. A primeira escolha surge como um mero pró-forma, porque quer ele acerte ou não, sobra sempre uma porta vazia. Não tentem dar à Matemática um cunho místico e contra-intuitivo que ela não tem. Já li extensivamente sobre este problema na Internet e de facto 99% são a favor da mudança de porta (2/3) contra 1/3. O problema é que não me convencem. Os únicos 2 matemáticos (um professor e um amigo doutorado em Standford) com quem discuti isto cara a cara tiveram a mesma opinião, aliás convenceram-me porque eu vinha da Internet fascinado com a hipótese dos tais 2/3 e fiz de advogado do diabo.

Tiago Souza d'Alte
O primeiro argumento do Bom Selvagem deita abaixo as outras teorias. (o segundo nem por isso, anda só à volta de um argumento de autoridade).

Bom Selvagem
Caro Tiago, não foi essa a minha intenção (com o 2º argumento), só queria introduzir o facto de já o ter discutido com colegas e de o problema não ser matematicamente complexo, é mais uma questão de lógica (aí o Solipsista dá cartas). Esta é uma explicação padrão que se encontra na Net: Monty has just shown that one of those two doors - which together have the greater probability of concealing the car - actually conceals a goat. This means that you should definitely switch doors, because the remaining door now has a 2/3 chance of concealing the car. Why? Well, your first choice still has a 1/3 probability of being the correct door, so the additional 2/3 probability must be somewhere else. Since you know that one of the two doors that previously shared the 2/3 probability does not hide the car, you should switch to the other door, which still has a 2/3 chance of concealing the car.

Perplexo
Em relação ao post das 6.40 am!! do Bom Selvagem: Se repetirmos a experiência muitas vezes, na primeira escolha o concorrente escolhe 1/3 de portas premiadas e 2/3 de portas vazias. Sem discussão? Se mudar sempre de porta na segunda oportunidade, muda para vazia no 1/3 que acertara e muda para premiada nos 2/3 que errara. Discussão?

Bom Selvagem
Enganei-me. Os acontecimentos não são independentes. De facto o apresentador não vira nunca a porta que escolhemos. Vai sempre virar uma das outras duas portas... A porta que escolhemos da 1ª vez tem influência na acção do apresentador. É mais fácil perceber isto se em vez de 3 portas pensarmos em 100 portas. Escolhemos uma e temos 1/100 hipóteses de ganhar. Depois o apresentador mostra-nos 98 portas vazias. Sobram só duas, a nossa e outra.. será que vale a pena mudar? Claro. Ok, ok, eu gosto é de ser diferente mas vou ter mesmo de me juntar ao gang dos 2/3. E vou bater nos meus dois amigos. Com força.

Tiago Souza d'Alte
Há uma maneira mais simples de testar o dilema: conduzam 100 experiências. 50 pessoas mantêm a decisão; as outras 50 mudam. Se os resultados demonstrarem que no grupo dos 50 que mudaram houve o dobro de respostas certas em relação ao outro grupo, a teoria estará certa. Quanto à questão das 100 portas: em vez de fecharem 98, fechem só uma. Como ficamos?

Bom Selvagem
Tiago, há na Internet alguns simuladores por computador, mas eles JURAM que se fizeres o teste, por exemplo com cartas, chegas a essa conclusão empírica em pouco tempo... Quanto à questão das 100 portas, caso se abrisse uma ele devia mudar.Passaria de 1/100 para 2/100 (1/50) de chances de ganhar.

Solipsista
Meu caro perplexo, explica-me só mais uma coisa. Disseste atrás que "A probabilidade de o 101º lançamento da moeda dar cara é de 1/2 e a probabilidade de saírem 101 caras seguidas é de 1 sobre (2 elevado a 101)". Então, se já saíram 100 caras seguidas, em que é que ficamos para o lance seguinte? Nos 1/2 ou nos 1 sobre (2 elevado a 101)?

Perplexo
O 101º lançamento tem a mesma probabilidade de «caras» que qualquer outro anterior - 1/2. Antes de qualquer lançamento, é que a probabilidade de 101 caras (ou qualquer outra combinação) é de 1 sobre (2 elevado a 101). Vejamos com 3 lançamentos: O 1º tem 1/2 (de «caras»), o segundo - 1/2, o terceiro - 1/2. Mas a probabilidade de sairem 3 «caras» seguidas (antes dos lançamentos)é 1/2 * 1/2 * 1/2 = 1/8. Ou seja, 1 sobre (2 elevado a 3). Que é a mesma probabilidade de sair cara - cara - coroa. Ou coroa - coroa - coroa. Etc. Cada uma das 8 combinações possíveis tem a probabilidade de 1/8 de sair. Depois do 2º lançamento e tendo já obtido 2 caras, já existe a certeza do que antes era só uma probabilidade de 1/4. A incógnita é só o 1/2 do 3º lançamento.

MrPCB
Só uma correcção analítica aos cálculos do Bom Selvagem. No caso do problema com 100 portas e se o apresentador fechar apenas uma, embora se mantenha a vantagem em mudar esta não passa para 2/100 ou 2%, mas sim para 99/9800, ou seja algo próximo de 1,0102040816326530612244897959184%. Passo a explicar, as 99 portas não escolhidas representam 99% de probabilidade juntas ou 99/100, eliminando uma a escolha recai sobre as 98 restantes, ou seja 1/98 dos 99/100 de probabilidades que é obviamente igual a 99/9800. Claro está que este tipo de problemas prova-se facilmente com o recurso a cálculo exaustivo. Portanto não se discutem verdades, foram descobertas há muito, apenas compreensões...

Bom Selvagem
Enganei-me, a solução é mudar de porta. Os acontecimentos não são independentes, o apresentador não vira a porta que escolhemos na 1ª fase. É mais fácil se imaginarmos 100 portas. Escolhemos uma e o apresentador abre 98 portas. Sobram só duas. Aqui já é intuitivo que devemos mudar de porta.

MrPCB
Pois é, pois é... na verdade estamos todos aqui a discutir o entender do problema, porque a sua solução não tem mistério, é 1/3 2/3, provado, com selo de aprovação e lacre em cima. Senão faça-se uma simulação como disse o Bom Selvagem enquanto julgava que isso comprovaria a sua teoria. Caro daigoro, é perfeitamente natural que pense que a probabilidade é 50%-50%, é essa a tendência natural do raciocínio humano, no entanto depois das claríssimas explicações nesta discussão creio que já devias desconfiar que estás errado (como aliás todos começamos por estar). Só um comentário que te pode ajudar a entender o teu erro: Os acontecimentos seriam isolados sim, se a localização do carro fosse rebaralhada na passagem à segunda fase. Nesses termos terias de facto 50-50. Uma vez que o carro é colocado atrás da porta no início do problema e continua atrás da mesma porta na segunda fase do problema tens aí a tua herança. Espero ter ajudado à tua compreensão do problema. E como não há duas sem três, deixo aqui um problema também interessante, se bem que não tanto quanto este. Se tivermos dois copos com quantidades iguais de líquidos diferentes (A e B), pegarmos numa colher e passarmos uma colherada do copo A para o B, mexendo bem e em seguida passarmos uma colherada do copo B para o A, mexendo também bem.Teremos o líquido A mais contaminado de B, líquido B mais contaminado de A, ou igualmente contaminados?

Perplexo
Por inesperado que seja, ficam ambos igualmente contaminados com o outro líquido, qualquer que sejam os volumes considerados.

Nuno
O perplexo não tem razão, relativamente à moeda. Se eu tiver uma moeda que atiro 100 vezes ao ar e sai "cara" as 100x, a probabilidade de sair "cara" à 101ªx é muito maior do que coroa, pelo menos se quem atira a moeda ao ar é a mesma pessoa. É uma cena mecânica. Se o mecanismo (neste caso é a pessoa que atira) atirou ao ar uma moeda e saiu sempre "cara", independentemente da probabilidade inerente à duplicidade da moeda, existe a probabilidade relativa ao mecanismo (a pessoa) que atira a moeda. Então, pode dizer-se que, para aquele mecanismo específico de geração de movimento (atirar a moeda ao ar) a probabilidade de um objecto que ostente uma dupla face chegar sequer a mostrar as duas faces é nula, até prova empírica em contrário.

MrPCB
Isso só é verdade se o processo mecânico for determinístico. E mesmo no caso do processo ser determinístico há uma taxa de caos a considerar, que representa o inverso da taxa de certeza da afirmação que fazes. Por outras palavras, o que tu dizes é que se saem 100 em 100 caras num sistema em que é sempre a mesma pessoa a atirar a moeda 10cm ao ar e saem 100 em 100 caras num sistema em que também é sempre a mesma pessoa a atirar a moeda ao ar, mas a manda a 10m de altura cheia de rotação, então a probabilidade de cada um tirar cara à 101ª tentativa é igual entre si e superior a 50%. Isto está redondamente errado, como aliás se faz notar bastando pensar no assunto. Tens aqui um exemplo ao estilo Zenão de Eleia que afirmava coisas absurdas, mas para as quais não havia o conhecimento teórico necessário para serem contestadas. O corredor nunca apanhava a tartaruga, porque cada vez que atingia o local onde ela estava esta já se tinha movido mais um pouco... faltava sempre metade do espaço anterior... enfim, uma abordagem discreta a um problema contínuo, não se sabia integrar, nem se conhecia o conceito e ele lá ia passando na sua de manter válida uma teoria que na prática não se aplicava... O que se passa no exemplo anterior é que conforme tu aumentas a complexidade do sistema (aumentando a altura, rodando mais a moeda, mudando de atirador, etc.), há um ponto a partir do qual o factor de caos do próprio sistema se torna insuportável. Esse ponto atinge-se quando uma alteração quântica no estado inicial resultaria numa alteração do resultado final. Ora o nível quântico é não determinístico, pelo que o problema se torna também não determinístico.O simples fenómeno de atirar uma moeda ao ar em rotação, de forma descontraída, é um sistema que ultrapassa essa barreira do caos e no qual já não encontras relação entre as condições iniciais e o resultado final. Logo, que se lixe o interveniente.... Ao que ainda acrescento que, por este motivo, (de não ser dependente da pessoa a partir de determinado nível de complexidade), pode-se aplicar o conhecimento de toda a história do lançamento da moeda, pelo que não se pode afirmar que a probabilidade da moeda mostrar as duas faces é... 50% (aposto em como uma estatística universal o prova à n-ésima casa). É esta a teoria correcta, mais não seja porque é a observável.

Nuno
É possível que a partir de determinado ponto o movimento mecânico que origina a acção perca partes da suas particularidades, tornando-se mais aleatório. Mas, teoricamente, cada indivíduo tem tendência, neste caso, para movimentar o braço de uma forma que lhe é inerente, a menos que seja um "atirador profissional de moeda ao ar" e tenha uma técnica tão desenvolvida que lhe permita ultrapassar a barreira da individualidade e "atirar da forma que lhe é pedida", tal como, por exemplo, um instrumentista de música clássica toca como lhe pedirem, podendo anular os seus próprios "tiques", eliminando assim a sua propensão para tocar desta ou daquela forma; tem a técnica necessária para controlar os seus movimentos, apesar de a forma como cada um movimento os dedos e toca nas cordas ser única, como que uma impressão digital e que coincidência seria se houvesse duas iguais. Aquilo no caso do "atirador de moedas profissional". Se for um indivíduo que não é "atirador de moedas profissional", que não treinou e, logo, não tem o saber que lhe permita controlar a força, a trajectória, enfim, toda a técnica inerente ao controlo do movimento que utiliza para atirar a moeda, esse indivíduo vai atirar a moeda à mesma. Não sabe como a atira, nem tenta controlar o resultado mas, de facto, atira-a e o factor caos acaba por cair no desconhecimento do indivíduo perante o processo e não perante o processo em si. O caos existe no sujeito e não na relação sujeito-objecto, porque esta é um facto empírico, consumado que, sem mais, é o que é e não pode ser mais nada. Assim, o caos reside na mente deste sujeito, na medida em que ele dá origem a uma acção concreta, apesar de não saber como manipular, influenciar, essa mesma acção. O facto de não saber como manipular, influenciar, a acção, não significa, perante a clareza consumada dos factos, que, realmente, fisicamente, esse mesmo indivíduo não tenha influenciado essa ocorrência, antes pelo contrário, pois se foi ele que decidiu e, fisicamente, atirou a moeda ao ar. Agora, não sabemos é determinar essa influência.

BMA:
Três acontecimentos constituem um universo em que a sua ocorrência é equiprovável (neste caso 1/3). Mas no caso de o universo de acontecimentos ser encurtado (pelo apresentador) não se distribuirá a probabilidade do acontecimento excluído equitativamente pelos acontecimentos que restaram (neste caso 1/6 para cada acontecimento) o que remete para uma probabilidade de 50% no caso de só existirem 2 portas?

MrPCB:
Não!

(Incógnito):
Caros amigos, confesso que após a primeira leitura apressada, convicto que a solução só podia ser 1/2, qualifiquei-vos como uns pândegos da pior espécie. Pensei melhor e descobri que afinal falavam sério, acabando pois por compreender o problema. De qualquer modo, perdi um tempo precioso, o que poderá ter desastrosas consequências para o desafio académico que se me aproxima. Não deixarei de vos chamar à responsabilidade junto das instâncias competentes.

Zé Nabo
As interpretações deste problema, antes de serem matemáticas, necessitam de uma interpretação psicológica: A solução passa por analisar o nível de probabilidade após o 1º evento, ou seja, se temos duas portas e uma delas tem o carro mas temos uma decisão anterior, podemos partir do principio que não tomamos essa decisão e assume-se que temos 50% de mudar. No entanto, se levarmos em conta a informação veiculada pelo apresentador, temos que introduzir a variante da hipótese de que ele estará numa fase do concurso em que eventualmente precisa de audiências ou não, e portanto, se está ali para nos ajudar ou não para oferecer o prémio - desta forma podemos interpretar a informação que foi transmitida ao concorrente da seguinte forma:
a) se o apresentador está a ajudar existe uma hipótese mais alargada de que a porta que o concorrente escolheu (porta B) seja a errada porque:
a1) o apresentador está a ajudar e a dizer subliminarmente que está na porta A (afinal a porta C foi retirada da lista de hipóteses).
a2) no entanto, pode estar a confundir para criar suspense mas efectivamente o carro está na porta B.
b) se o apresentador não está a ajudar existe uma hipótese mais alargada de que a porta que o concorrente escolheu (porta B) seja a correcta porque:
b1) o apresentador não está a ajudar e confunde a escolha prévia forçando a escolher a porta A como nova escolha.
b2) no entanto, se o concorrente e assumir que não está a ser ajudado deve manter como escolha a porta B.
Para concluir, e se assumirmos que o apresentador não retirará qualquer vantagem da escolha do concorrente, apesar de ter ajudado ao ter dito que a porta C não tinha o carro temos:c1) se o concorrente mantiver a sua escolha na porta B será apelidado de teimoso e:
c1a) se perder será por culpa do mesmo.
c1b) se ganhar será apelidado de clarividente.
c2) se o concorrente mudar a sua escolha para a porta B será apelidado de aventureiro e:
c2a) se perder, ao menos arriscou - era um concurso.
c2b) se ganhar será um destemido sortudo.

Kinder
Fogo.. até quem estuda matemática há anos se depara neste merdoso problema? O bom selvagem disse há uns posts acima que se tivéssemos 100 portas, escolhêssemos 1 e depois o apresentador deixasse apenas a nossa e outra, isso validaria a possibilidade de valer a pena trocar.. mas eu sugiro que ponham os miolos a funcionar.. vale a pena trocar porque? A única diferença é que a primeira escolha que fizeram foi com probabilidade de acertar 1%.. e agora tem a possibilidade de acertar 50%... mas escolher os 50 da esquerda ou os 50 da direita não vai alterar a possibilidade... problema mais básico...

MrPCB
Ao Kinder: Tão básico que erraste! Repito, não está em causa o resultado, está em causa a compreensão do mesmo. O resultado é conhecido por todo o mundo da matemática há décadas, mais provado que um big-mac, se achas que há 50-50 estás errado, lê os comentários acima. Há muita malta que esclareceu muito bem o problema. A beleza é entender o porquê de não ser 50-50, diria portanto que ainda estás por descobrir a beleza tenta... vale a pena.
Ao Zé Nabo: É uma análise excelente a tua, numa situação da vida real, não se poderia deixar de lado. No entanto este problema não existiu na realidade, usa um cenário "montado" teoricamente para o postular. Pelo que podes cingir-te à matemática sem temer o humor do apresentador.

Zé Nabo
Caro MrPCB, a minha análise sociológica do assunto não invalida que esta possa ser introduzido na formula matemática como sendo o elemento z - que será o elemento tridimensional do problema que envolve:
a) o humor do apresentador que inclui:
a1) a expressão facial.
a2) a expressão vocal.
a3) a expressão corporal.
a4) a verbalização.
b) a percepção extra sensorial do concorrente.
c) a influência das afirmações do público presente.
d) a influência do público em casa.
Este factor z, digamos que apelidado de factor que envolve uma percentagem não determinada de sorte e percepção mental da interpretação destes elementos, poderá pender a decisão de escolher na 1a ou 2a fase da evolução do concurso. Se assumirmos que na 1a fase o elemento a) não interviu e após a 2a fase do concurso envolvemos na equação de decisão o elemento a) então a percentagem que temos é de: x(porta A) vs. y(porta B) vs. z onde a ponderação de z será maior ou menor dependendo da capacidade do concorrente ser um indivíduo influenciável por estes elementos externos presumivelmente não mensuráveis à excepção do próprio no momento da decisão.

Tiago Souza d'Alte
Decorre de todo o trabalho desenvolvido acerca do programa que para muita gente é importantíssimo ganhar um carro num concurso... Valerá tudo isto a pena? Pensar no que seria o mundo se o tempo consumido nestas futilidades fosse aplicado noutras áreas mais produtivas...

Zé Nabo
Sr. Tiago Souza d'Alte, para que saiba a importância de deter um carro, informo-lhe que a taxa de motorização da cidade de Lisboa subiu de 1991 a 2003 cerca de 92% e na cidade do Porto cerca de 55%. Praticamente ninguém pondera a possibilidade de não possuir uma viatura.

Tiago Souza d'Alte
É bem verdade. Mas a futilidade a que me referia não era ser proprietário de um carro.

Perplexo
Caro d'Alte: o progresso da ciência e da técnica foi muitas vezes feito à custa da simples curiosidade dos homens por questões aparentemente corriqueiras. Mesmo a questão destes comentários ou a que lhe está subjacente - a das probabilidades, pode ser muito útil, até no dia-a-dia. Se algum dos visitantes alterar alguma visão mítica das probabilidades para uma compreensão clara, terá valido a pena.

Alex
Como é q um assunto tão simples tem tantos comentários?

domingo, fevereiro 29, 2004

Explicação do post anterior (atenção: este é um post sério!)

A propósito do meu post anterior, o Perplexo, num tom compreensivelmente perplexo, escreveu: “Está a brincar meu caro Solipsista!? Nem vale a pena falar no poker, o jogo dos lugares e a superstição típica dos jogadores. Num 101º lançamento de uma moeda que nos 100 lançamentos anteriores deu coroa, a probabilidade de sair cara continua a ser de 50%. A moeda não tem memória dos lançamentos anteriores. Se a diferença nunca baixar dos 100, quando tiverem saído 10100 coroas e 10000 caras, a relação coroas-caras está em 50,2% - 49,8%. Não foi preciso obrigar a moeda a sair mais vezes cara, para equilibrar a média. Brincava?”.
Em resposta, confesso que sim, estava a brincar, e não, não estava! Passo a explicar:
É evidente que o Perplexo tem toda a razão! Aliás, o argumento dele não poderia ser mais elucidativo. Não é preciso evocar “memórias universais” para explicar a lógica inerente às leis da probabilidade. Considerando cada lance de moeda por si só, verifica-se que não é necessário considerar o “passado” da moeda para constatar que a soma de todos os lances tende para os 50%-50% no infinito, independentemente de qual tenha sido a excentricidade do seu comportamento nos lances anteriores. Nesse sentido, os argumentos que utilizei no meu post sobre o “jogo de Poker” são, de facto, absurdos. Aliás, chegam a roçar o misticismo, o que, quanto a mim, seria gravíssimo se este blog tivesse maiores pretensões de seriedade! Basta, por exemplo, evocarmos a navalha de Occam para desfazermos todas as dúvidas: Qual é a explicação mais simples? Que a moeda pura e simplesmente se reja, em cada lance, pelo princípio dos 50/50 – acabando desse modo por obedecer, perfeitamente, às constatações empíricas –, ou que o universo tenha em conta todo o passado da dita cuja, fazendo as contas de todos os seus resultados sempre que alguém se lembrou de atirá-la ao ar, desde que foi cunhada na casa da moeda? A resposta parece por demais evidente. Portanto, neste sentido, eu estava de facto a brincar!...
Por outro lado, confesso que não estava a brincar. Chamem-lhe ingenuidade, mas a verdade é que, sempre que penso em leis estatísticas, há sempre qualquer coisa de genuinamente misterioso que me parece vaguear nas entrelinhas, como uma pedra no sapato! Há muito que penso nisso (apesar do meu amadorismo no que à matemática diz respeito), e ainda não consegui perceber realmente onde está o meu erro de raciocínio! Também me parece, arrisco-me a dizê-lo, que a resposta não estará na própria matemática – enquanto instrumento puramente formal – mas assume contornos, se não místicos, pelo menos metafísicos!... Esta minha pedra no sapato é um tanto ou quanto subtil, mas não consigo deixar de pensar que é legítima. E, ironias e brincadeiras à parte, tem muito a ver com as confusões que expus no meu post anterior. Talvez a melhor forma de expô-la seja com um novo exemplo (por sinal bem conhecido):
O leitor vai a um concurso de televisão. O apresentador coloca-o perante três portas ocultas, dizendo-lhe que há um carro por trás de uma delas, e pede-lhe que escolha uma, A, B ou C. O leitor opta, por exemplo, pela porta B. Seguidamente, o apresentador, por sinal de uma infinita benevolência, dá-lhe uma dica preciosa: Diz-lhe que o carro não está por trás da porta C e dá-lhe oportunidade de mudar a sua primeira opção. Que fará, então, o leitor? Mantém a escolha da porta B ou muda para a A? Que acha que é melhor fazer? Talvez, por uma questão de carácter, seja melhor manter! Ou será indiferente?... A primeira intuição diz-nos que sim, que há 50% de hipóteses de estar em A ou B, correcto?...
Pois, mas é aqui que a porca torce o rabo! E se eu lhe disser que, na verdade, há o dobro de probabilidades de acertar se mudar a sua escolha? Não acredita? Também eu não quis acreditar quando me contaram! Eis a explicação, muito resumidamente:
Quando o leitor faz a primeira escolha (B), tem 1/3 de probabilidades de acertar no carro, visto haver três portas disponíveis. Ou seja, há 2/3 de hipóteses de não estar em B. Seguidamente, C é descartada pelo apresentador, restando apenas A e B. Então, se há 1/3 de probabilidades de o carro estar em B, logicamente haverá 2/3 de probabilidades de estar em A, ou seja, o dobro das probabilidades!!....
Se o leitor continua incrédulo, aconselho-o a fazer a experiência aí em casa, com três chávenas e uma moeda, por exemplo. Ou pode fazer a sua investigação através da internet: trata-se do “problema de Monty Hall”.
Quanto a mim, extraio deste exemplo o cerne do problema que parodiei no post anterior. A essência da questão é a mesma: Porque é que o “universo” leva em conta o facto de haverem três opções iniciais, mesmo depois de uma delas já ter sido descartada? Não estaremos perante uma qualquer forma de “memória universal”? Agradeço a quem consiga tirar-me esta pedra do sapato... é que dói que se farta!

sábado, fevereiro 28, 2004

Jogar Poker com o universo...

Ontem, enquanto jogava poker numa tasca aqui perto, fui presenciado com uma revelação divina! Só não gritei "Eureca" por não ser casado, por não estar enfiado numa banheira e por receio que pensassem que estava a fazer bluff.
A minha constatação foi simples: se todos os jogadores forem igualmente bons, todos terão a mesma probabilidade de ganhar quantia idêntica no final da noite. Portanto, se em dado momento algum deles estiver com demasiado azar, espera-se que venha a recuperar a sorte nos minutos seguintes, fazendo as pazes com a média estatística. Assim me ocorreu que, partindo desse princípio, talvez desse para ludibriar os meandros secretos do cosmos!
Ora vejamos: Se o jogador sentado na cadeira A está a ter mais azar que os restantes, troco de lugar com ele na altura certa e deverei, à partida, receber a sorte que a cadeira dele tem em défice, visto que, no final, tudo tende para o equilíbrio!! Conclusão: dá para correr atrás da sorte! Na verdade trata-se de uma intuição básica: O caro leitor tem uma moeda na mão e quer adivinhar se vai sair cara ou coroa. Dizem-lhe que nas cem vezes anteriores saiu coroa. Então, certamente irá confiar que sairá cara na vez seguinte, tendo em conta a enorme improbabilidade de que saia coroa 101 vezes seguidas! Pode dizer-se que o universo está, naquele preciso momento, potencialmente inclinado para a cara! Uma espécie de "atractor estranho"!... Ora, no Poker, pensei eu, deveria ser a mesma coisa!
Já passava das duas da manhã e o Frederico estava, desde o início da noite, a ter um azar de meter dó! Eu, em contrapartida, estava com um lucro simetricamente oposto! Tudo indicava que, a qualquer momento, ele deveria começar a recuperar e eu a levar no lombo! Portanto, nada mais simples! Bastava trocarmos de lugares e tudo se manteria intacto: Eu roubava-lhe a sorte a que ele tinha direito e ele roubava-me o azar que me era devido!
Foi fácil convencê-lo! Disse-lhe:
- Ó Frederico, esse teu lugar está amaldiçoado! Troca lá comigo que eu hoje estou mãos largas!
O tipo deu um salto da cadeira:
- És um bacano!!!
Dez segundos depois estávamos onde eu queria que estivéssemos, ambos de sorriso nos lábios, a manusear o mecanismo universal das probabilidades. Porém, qual não foi o meu espanto ao dar conta, a pouco e pouco, que a coisa afinal não estava a resultar: misteriosamente, eu comecei a ter azar e o Frederico a ter sorte.
Disse eu:
- Foda-se!
Disse ele:
- Obrigadão, pá!
Pus-me a pensar no que teria corrido mal! Não sou nenhum especialista em cálculo de probabilidades mas dei rapidamente conta de duas implicações importantes: em primeiro lugar tinha de haver um ponto de referência espacial a partir do qual se pudesse fazer a gestão da sorte! Quer dizer, eu tive em consideração os lugares onde estávamos sentados mas não me lembrei de ter em conta os próprios jogadores! Afinal o que é mais importante? O lugar do jogador ou o próprio jogador? Qual deles é que o universo tem em apreço ao fazer as contas? Será que leva ambos em igual conta? Terá o universo ficado confuso no momento em que trocámos de lugar? Terá ele equacionado alguma coisa deste género: "Bem, o Frederico merece ter sorte a partir de agora mas, em contrapartida, veio sentar-se num lugar que merece ter azar? Que se lixe, jogo aos dados e pronto!"...
Em segundo lugar, pensei que também deverá haver um ponto de referência temporal, uma espécie de memória do universo acerca do passado de cada objecto, capaz de condicionar o que lhe vai acontecer a seguir! Por exemplo, no caso da moeda, eu poderei esperar que saia cara por saber que saiu coroa nas 100 vezes anteriores, mas o universo pode querer que saia coroa por saber que, na história global daquela moeda particular, já saíram 100 vezes coroa mas 1000 vezes cara! Até onde vai a memória do universo? Será amnésico ou será que tem tudo apontado na caderneta? Terá ele levado em conta todos os jogos de poker em que eu e o Frederico já participámos conjuntamente, de forma a melhor sentenciar a sorte do jogo de ontem?
E o mais estranho é que tudo isto de que tenho vindo a falar - as moedas, os jogos de Poker, as cadeiras, os próprios jogadores - tudo isto não é mais que mera construção mental, só é ponto de referência na minha cabeça! O universo certamente não faz uso de conceitos específicos como "lugar do Frederico" enquanto calcula a média estatística! Mais um nó no cérebro!...
Enfim, depois de alguns minutos de devaneio, acabei por me render a esses desígnios inomináveis do cosmos e limitei-me ao poker. No final da noite perdi 20 euros...

sexta-feira, fevereiro 13, 2004

CAOS

Já faz mais de um mês que estou neste quarto de hospital, enclausurado numa cama individual, as pernas engessadas, alguns aparelhos de rotina à minha direita, uma televisão no tecto sempre desligada (ou avariada, nem sei), na mesa de cabeceira uma pilha de cartas de remorso que o filho de Rousseau me enviou, preocupado com a demora da minha recuperação, ao lado das cartas a resma dos livros com que tenho passado a maior parte do tempo, quatro ou cinco do Henry Miller, dois do Sade, o “Equador” do Miguel Sousa Tavares só para dizer que o tenho, alguns do Saramago para o mesmo efeito, ainda um outro do Paulo Coelho para impressionar as enfermeiras, e um último – que estou a ler neste momento – sobre teoria do Caos.
Esta nova ciência tem-me dado a volta ao miolo!... Não tomava conhecimento de entrelinhas do mundo tão desconcertantes desde a adolescência, quando descobri coisas como a derrota do programa de Hilbert, a omnipresença mágica do número Pi, os teoremas de Godel ou a masturbação!
E dirá agora o meu amigo relativista: “Com que então, solipsista, andas a ler um livro sobre Caos!... Um tipo ortodoxo como tu a transgredir o lema reduccionista! Quem diria!...
Pois bem, confesso que levei um tabefe profundo na minha concepção prévia da realidade, isso é um facto... mas calma lá com as extrapolações. Ainda não foi desta que mudei de equipa. Evidentemente, não vou explicar aqui a forma como concilio o Caos e a ciência normal numa epistemologia comum, mas alerto desde já aqueles que adoram terminologias dúbias e sugestivas – como “caos” – para que não caiam no erro de levar a palavra à letra. Einstein cometeu um erro parecido ao dar à sua teoria o nome de relatividade – em vez de invariância – e foi o que se viu: legiões de novos profetas a proclamar em nome do mestre que tudo será, doravante, relativo. Desta vez, os teóricos ainda foram a tempo de trocar o termo caos pela bem mais inócua definição de “Estudos da complexidade”, não fossem elevar-se das trevas legiões de vozes a proclamar que tudo será, doravante, caótico! Mesmo assim, continuo a preferir o termo caos, portanto será esse que, doravante, irei usar!
Aliás, a teoria do caos, ao invés de proclamar a anarquia universal, limita-se a procurar a ordem subjacente à desordem, a investigar a estrutura daquilo que é aparentemente caótico, sondando padrões e regularidades nos sistemas até recentemente considerados insondáveis, dada a sua complexidade. A novidade está na abordagem holística desta nova ciência. Em vez de decompor o problema nas suas partes, toma o sistema na sua totalidade, com “ruído” incluído, e interpreta os seus timbres implícitos e a sua natureza global. Em suma, pela primeira vez em ciência, eis uma ferramenta potencial para compreender as mulheres...
Ainda muito terei a dizer sobre este método peculiar de busca da verdade. Mas agora não posso, que é hora de colocá-lo em prática: Vem aí outra vez a enfermeira...

segunda-feira, janeiro 12, 2004

Entrevista ao Solipsista

Passei os últimos dias enfiado num quarto de hospital, ligado à máquina, com duas fracturas expostas e muito mau humor... a razão é simples: O "filho de Rousseau" convidou-me para ir à tasca dele dar uma entrevista e eu, ingenuamente, aceitei. Agora, quando olho para trás e me apercebo do erro, uma única coisa me levanta a moral: o gajo ainda ficou em pior estado que eu!...
Enfim, aqui fica a parte legível da entrevista, antes da conversa dar para o torto:

Bom Selvagem: Boa noite caros blogo-espectadores e sejam então bem vindos ao Encostado ao Balcão da Tasca com... (pausa para verificar o nome)... O Sol..ipsis..ta.. Solipsista.
E o Solipsista que aqui está encostado ao balcão da MINHA Tasca escreve coisas com piada sobre filosofia. Pelo menos diz que sim. Na minha opinião, e é só a minha humilde opinião de toneladas de sapiência laboriosamente sedimentadas, não se deve brincar com coisas sérias como a filosofia, a literatura ou a astro-quântica. As regras editoriais da Tasca primam pela qualidade e elitismo.
Mas hoje abrimos uma excepção, por isso, seja bem vindo caro Solipsista!

Solipsista: Ora muito boa noite, meu caro “filho de Rousseau”, caros blogo-espectadores, caras blogo-espectadoras, caríssimos tecnocratas e amantes do Cyber-zapping.
Por delicadeza, sinto-me obrigado a agradecer por esta entrevista, muito embora, no que diz respeito a estas coisas, a minha opinião seja um pouco como a do António Lobo Antunes: “Aceder a entrevistas é um exercício de vaidade e, como tal, só as faço se me pagarem!”. Curiosamente, estou a atravessar uma fase de invulgar altruísmo, portanto, neste caso particular, decidi render-me à vanglória.
Notei a dificuldade que o caro “filho de Rousseau” teve em soletrar a minha insígnia profissional e ideológica. É compreensível, pese embora a afronta implícita que uma tal gaguez sugere!

Bom Selvagem: Gaguez? Desculpe mas eu não quis sugerir que...

Solipsista: Já em puto, quando me perguntavam “Que queres ser quando fores grande?” e eu respondia “Quero ser solipsista...”, brindavam-me sempre com o mesmo desdém e renúncia. Durante anos, por exemplo, a minha mãe viveu com receio que esse termo estivesse, de algum modo, relacionado com a homossexualidade. Dizia ela: “Antes trolha que essa merda!!”. Por consequência, vivi uma infância misantropa e revoltada. Mas que culpa tenho eu por o solipsismo ser tão difícil de soletrar?

Bom Selvagem: Eu soletrar euh... não mas hmm...

Solipsista: Notei também, amigo “filho de Rousseau”, que parece ter caído num gravíssimo mal entendido: Então eu escrevo coisas com piada sobre filosofia?!? Nada disso!! A filosofia, penso eu, já é cómica por natureza. Quanto a mim, limito-me a explicar – com cuidada seriedade – o teor dessa comédia. E nunca conheci nenhum comediante que tivesse piada ao explicar porque é que as piadas têm piada! Portanto, volto a sublinhar: O meu trabalho é sério e honrado!
Uma última coisa: Astro-quântica??!!! Mas que merda é essa? Daqui a pouco estamos a falar de cromodinâmica quântica das constelações do hemisfério Sul...

Bom Selvagem: AH! Não sabe o que é Astro-quântica!? Viram? Viram? Pff... a astro-quântica, fique sabendo, foi o trabalho de uma vida do astrónomo Hubble que teve de quantificar os astros e... bom eu explico-lhe depois. E podíamos estar aqui a noite toda a falar de cromodinâmica quântica das constelações do hemisfério Sul! Mas vamos antes a outros assuntos caro Solipsista, tenho de lhe dar uma oportunidade de brilhar não é? Então diga-me lá... qual é...hmm... a sua cor preferida... sim isso! Qual é? E...se fosse um animal, qual é que seria?

Solipsista: Ho... o meu querido Hubble, pobre homem! Dou-lhe mais crédito pela pachorra que teve para contar tanta estrela que propriamente por ter descoberto que o universo está em expansão. É precisa muita coragem (e muita queda para o celibato) para se enfiar num observatório durante anos a fio a olhar para chapas fotográficas! Enfim... aprendi com ele duas grandes lições na vida:
1) Se queres ver um telescópio baptizado com o teu nome, põe-te a contar estrelas de forma obsessiva! Se possível galáxias!
2) O efeito doppler diz-nos que o universo é maioritariamente benfiquista!...
Ora, mas qual era mesmo a pergunta?

Bom Selvagem: Qual é a sua cor preferida? E se fosse um animal, qual é que seria?

Solipsista: Ha, sim, as cores e os animais! Bem, que hei-de eu dizer perante uma pergunta deste tipo?... como é que se responde a isto? Sinto-me como se estivesse numa consulta de psiquiatra a interpretar borrões de tinta... não tarda, estás-me a perguntar a data de nascimento e o número de letras do nome completo para me fazeres uma análise numerológica. Mas calma, deixa-me pensar um bocado... cá vai: o animal favorito é o pato e a cor é o bege. Assunto arrumado!

Bom Selvagem: O pato? Pffff ih ih ih porque raio é que alguém havia de escolher o pato!? Ainda se fosse aquele animal meio pato meio marmota... aquele, o ornitorringolaringotorrinco. Quanto ao beige... isso é freudiano, lembra-lhe o leite materno ou o conteúdo de um preservativo usado que alguém lhe meteu no bolso, na escola para gozar consigo e depois a Inês estava lá e riu-se e corei corei e fiz chichi nas calças...
Mudando de assunto, sabe, o meu grande amigo Boaventura Sousa Santos, no outro dia quando estavamos a jogar dominó ali na Estrela, sabendo que eu o ia entrevistar, mandou-me ler-lhe esta missiva que anotei na folhinha de pontuações: “Solipsista, junta-te ao Lado Relativista, tu e eu podemos fazer grandes coisas juntos, a Força é forte em ti.” Quer responder-lhe... aqui em directo ?

Solipsista: Minha nossa!! Agora tocou-me na ferida!! Se eu soubesse que andou a jogar dominó com esse gajo nem sequer tinha aceite o convite desta entrevista! Cá para mim, o meu amigo “filho de Rousseau” anda com muito más companhias! Por favor, tenha cuidado! Eu sei que o lado relativista da força é tentador e poderosíssimo, permite imunidade plena contra as rédeas da razão (pelo menos da razão razoável)... inspira a bem amada liberdade poética em todas as áreas, até na topologia diferencial... ilumina o lado humano das questões universais... resgata o tão almejado antropocentrismo perdido... coloca-nos de novo no centro do mundo (como qualquer outra religião que se preze)... é mais corajosa do ponto de vista pós-moderno e, portanto, mais honrada...

Bom Selvagem: Zzzzz hmm, hã?! Sim claro... honrada...

Solipsista: ...é mais desconfiada da ideia de verdade e, portanto, menos ingénua... trás consigo a aliança a todo um género de ceitas populosas da Nova Era (os raelianos, por exemplo)... já para não falar de que, embora se oponha aos ideais do capitalismo neo-liberal, acaba, paradoxalmente, por vender melhor! Aliás, sempre gostava eu de saber a quem andou esse tal BSS a dar o traseiro para conseguir que o seu livrinho “Um Discurso sobre as Ciências” fosse empregue nos programas de uns certos cursos do ensino superior que eu cá conheço. Faz-me uma confusão tremenda! Abomino gente que se aproveita da ingenuidade intelectual deste país para impingir manifestos epistemológico-dadaístas!! Pois então diga lá a esse gajo que eu, se o apanho na rua, encho-o de porrada! E ele verá até que ponto a força está comigo...

Bom Selvagem: Aii.... Eu posso ser velhote mas ainda tenho forças! Sei artes marcianas como o Judo-Jitsu e o Kick-Power! Não fale assim dos meus amigos! Essa foi a última gota! E o que encheu o copo foi isso do senhor Solipsista se a meter com a MINHA Cath d'a Base do Optimismo, eu vi-a primeiro, ela só soube do seu blogue graças ao linke na minha tasca! É MINHA! OUVIU?!? MINHA! Eu sou mais culto e mais bonito e mais forte que você!
*Bom selvagem arregaça as mangas*

Solipsista: Mas tu fazes ideia de com quem te estás a meter, pá? Fazes porventura ideia daquilo que um solipsista é capaz? Nunca viste o Matrix? Venho eu aqui à tasca com a melhor das intenções, espírito aberto e cavalheiresco, disposto a revelar a minha intimidade, e este gajo responde-me com instintos nietzscheanos??! Mas se é luta de galos que queres, luta de galos terás! *Solipsista arregaça as mangas* Aliás, pela Cath , tudo vale a pena!! Aprendi com ela que é possível o concílio entre a poesia, o sexo feminino, a demanda da unificação da física e o Nick Cave!! Ela é um anjo caído da net! É o meu estímulo para ligar o PC todas as manhãs!! É a força anímica da minha intelectualidade! É o bálsamo que me faz redescobrir a objectividade do real! Anda cá ó manso! Qual selvagem qual quê? Ponho-te já numa jaula!!!....

sábado, dezembro 27, 2003

"História de Moral", By Solipsista

O Xavier adorava fumar, fumava três a quatro maços de tabaco por dia. Afiançava ele que o seu vício não era vício mas antes uma devoção, a rendição assumida a um prazer irresistível. Elogiava o acto de sorver o fumo, o crepitar da ponta incandescente, a postura dos dedos, a pose do fumador inteiro, a consistência do cigarro, a estética do maço, este homem vivia numa apoteose aditiva sem igual.
A primeira vez que ouvi alguém dar-lhe uma achega sobre esta sua compulsividade doentia, advertência suave e despercebida que o Xavier nem teria notado se, de certo modo, já não se sentisse penitente à partida, nessa primeira vez ouviu-o dizer “Que se foda!...”.
Ao longo destes últimos anos, e à medida que a sofreguidão do cigarro vai aumentando, não poucos lhe têm feito notar o erro e a irresponsabilidade, alguns chegaram mesmo a propor-lhe um eventual abrandamento, quem sabe até uma pausa, mas a tudo isso ele respondeu sempre com uma chama de isqueiro e um redondo “Que se foda!”.
Quando o médico lhe lançou o alerta, o ultimato, a obrigação das medidas drásticas, o Xavier consentiu dentro do consultório em silêncio, até fez uma vénia compassiva, mas, logo à saída, a prioridade foi pedir lume e dizer “Que se foda”....
Ontem, quando o mesmo médico lhe diagnosticou o cancro em tom de sentença, frisando com justo sadismo a brevidade com que virá o suplício e a deploração, ontem que o Xavier soube que vai morrer, ele chegou-se junto de nós, acendeu um cigarro e disse “Que se foda!”.

segunda-feira, dezembro 22, 2003

Conversa com o meu sobrinho acerca do Pai Natal...

O meu sobrinho Titinho ainda acredita no Pai natal. No entanto, ultimamente, talvez por já ter nove anos, começou a fazer perguntas estranhas. Desconfio que esteja a entrar numa crise de fé sem precedentes, o que me deixa extremamente preocupado, até porque já só faltam dois dias para a chegada das prendas.
Hoje, à mesa do almoço, encontrei o puto particularmente pensativo, a mastigar o peixe com a mesma alienação de quem come carne, a meter o arroz de feijão à boca com uma tranquilidade soturna, a não olhar para a televisão apesar dos anúncios, o puto calado e a portar-se bem, eu a perguntar “Titinho, que se passa contigo, pá?”, e ele a deitar-me um olhar de renúncia fúnebre, a mãe a inquirir “Tens a certeza que o feijão tá bom, filho?”, e ele a engolir a garfada com uma determinação nunca vista, todos à mesa a perderem o apetite, fixos no rapaz, incrédulos, e ele para mim:
"Tio solipsista, acreditas mesmo no pai natal?"
"Claro que sim!", disse eu.
"Mas há miúdos lá na escola que não acreditam."
"São uns ignorantes", afiancei, piscando-lhe um olho, "os teus colegas devem estar a referir-se aos Pais natal que aparecem na televisão! Esses são falsos, claro! O verdadeiro não se deixa corromper por contratos publicitários!"
"Mas, Tio Solipsista, não é verdade que o Pai natal se veste de vermelho por influência da Coca-cola? Isso faz-me pensar que ele não passa de um símbolo mercantilista ao serviço dos interesses consumistas da sociedade ocidental contemporânea..."
"Mas esse pormenor não invalida que o Pai natal exista como entidade autónoma. Também se vendem muitas t-shirts do Che Guevera e, todavia, ele existiu de facto!"
"Esse argumento não me chega, tio. Também o Bertrand Russell provou, por A mais B, que o Papa e ele eram a mesma pessoa, e, porém, todos sabemos que o Bertrand Russell era ateu! A mim não me basta essa tua retórica sofisticada, eu preciso de provas empíricas!"
"Em primeiro lugar, Titinho, nada te garante que o Papa não é ateu! Em segundo lugar, se é de provas que precisas, não te chegam os presentes que recebeste no ano passado?"
"São evidências demasiado indirectas. Como notaram Duhen e Quine, é sempre possível jogar com as provas e os dados de observação de modo a adequá-las à hipótese que se tenta provar! Portanto, nada me garante que não foste tu, fantasiado de Pai Natal, que trouxeste os presentes! Ou o avô, que é mais gordo!"
"Titinho, diz-me lá uma coisa, tu acreditas no Bill Clinton?"
"Acredito."
"Porquê?"
"Já o vi na televisão."
"Na televisão?! Mas já olhaste bem para dentro de uma televisão? São só electrões num tubo de raios catódicos!"
"Sei onde queres chegar, tio, mas isso não me chega! Preciso de verificação experimental."
"Qual verificação qual quê?", explodi eu, "Não me venhas com essas merdas do Círculo de Viena! A verificação que se foda!!!"
"Tens razão, tio, tava a esquecer-me da licção de Popper: Não posso verificar a existência do Pai natal mas, por outro lado, também não posso falsificar essa afirmação por não ser tratável cientificamente! Ora ai está: não é possível provar a existência do pai natal mas também não é possível provar a negação da sua existência! O Pai Natal não é cientificamente falsificável!! Isso para mim chega! Obrigado, tio solipsista! Espera lá... que merda é esta no meu prato?..."
Suspirámos todos de alívio e ternura: O titinho tinha voltado ao normal...

sábado, dezembro 20, 2003

Elogio às velocidades taquiónicas...

Acabei recentemente a leitura do livro do João Magueijo, “Mais rápido que a Luz”. E porra, o tipo é mesmo bom! Para quem não sabe, ele conseguiu o aparentemente impossível. Não me refiro, evidentemente, às manchetes de jornal que por aí andaram a felicitá-lo por cometer a heresia de pôr em causa a teoria da relatividade – toda a gente sabe que essa afirmação é um completo disparate (os editores dos jornais nunca foram lá muito inteligentes, pese embora a sua astúcia sensacionalista... um dia destes, por este rumo, aparece-me um título de jornal da pinta: “Escândalo: Em pleno século XXI ainda se usa a mecânica newtoniana para calcular o movimento de projécteis!”... ou “Casal de físicos transmontanos ainda usa termos como protão e neutrão!”)...
O que o compadre Magueijo conseguiu foi conciliar o aparentemente inconciliável, mormente a física teórica de ponta com a (até agora tida como fatal) nacionalidade portuguesa... é certo que ele fez alguma batota durante o processo: por exemplo, fugiu de Portugal. Mas quem poderá censurá-lo?
Outro aspecto em que é preciso aplaudi-lo é o seu estilo literário revolucionário. Nem Stephen Hawking – que tanto se gaba por ter vendido mais livros sobre física que a Madona vendeu sobre sexo – lhe chega aos calcanhares neste ponto. Propondo-se descrever a odisseia de investigação que o trouxe à sua teoria VSL, o Magueijo utiliza, em “Mais rápido que a Luz”, pausas frequentes para descrever as suas férias em Goa, as suas aventuras nos bares de Londres, o seu natal em Portugal... anexa fotos aqui e ali, algumas de colegas de profissão, uma outra da namorada; entre descrições lúcidas sobre problemas cosmológicos como o do horizonte ou da homogeneidade, vai confessando o seu desejo momentâneo de ir a um bar apanhar uma piela... enfim, uma delícia de livro!
Esforçando-se por seguir a máxima de Feynman: “vão-se todos lixar, eu faço o que me der na pinha e estou-me a cagar para o que vocês pensam!” (pág.183), Magueijo arrisca ainda títulos de capítulo como “Quando Deus estava speedado...”, fazendo lembrar, em ousadia e arrojo, os capítulos com que Nietzsche temperou o seu derradeiro “Ecce Homo”, intitulados “Porque sou tão sábio” ou “Porque escrevo tão bons livros”...
Deixo-vos então com alguns trechos deste livro fascinante que promete revolucionar não só as orientações da física como também as dos próprios físicos:
“Era com este humor sombrio que ia beber um copo ao fim do dia com a minha namorada, Kim, algures em Notting Hill. A essa hora sentia-me mal a ponto de querer desesperadamente tirar da cabeça todo esse esterco, fosse de que maneira fosse. De facto, à segunda cerveja, todos aqueles impressos sórdidos se escoavam pelo ânus do meu cérebro. Não é de estranhar que haja tanto alcoolismo na Grã-Bretanha (pág.157 - acerca das burocracias da instituição científica).
“Dito com toda a brutalidade, os chefes do Imperial gostam de se ver como chulos científicos, num contexto em que os cientistas fazem o papel de putas. (...) e no instante em que escrevo estão a cometer o mesmo erro com outro cientista, um teórico de cordas de renome mundial. As pessoas que querem ficar com todo o crédito por uma instituição de primeira só são, no meu entender, primeiras na merda (pág.218 - acerca da competição científica em geral)...
Uma vez mais: parabéns Magueijo...

Anedota

O episódio que o “filho de Rousseau” me enviou merece o estatuto de post. São pequenos trechos como este que, tal como os provérbios milenares, escondem as verdades mais profundas. Ora aqui vai:

Um contínuo de limpeza interrompe um físico que fazia experiências no acelerador de partículas do CERN:
- Olhe, desculpe lá interromper, mas porque é que vocês precisam de equipamento tão caro para estudarem? É máquinas, lasers, coisas esquisitas... e não se vê nada! E há gente aí a morrer de fome! Porque é que não fazem como os matemáticos? Passo por lá e os tipos só precisam de papel, caneta e um caixotinho do lixo. Ou ainda melhor, façam como os filósofos, esses só precisam de papel e caneta!"...

segunda-feira, dezembro 08, 2003

Dois em um: As parideiras cósmicas e a dignidade humana...

Cap. I
A estratégia trans-disciplinar.


Uma das fantasias ou devaneios mais publicitados pelos relativistas epistémicos a propósito do método científico moderno centra-se na chamada trans-disciplinaridade. Pretendendo reformular o paradigma clássico que tão ingenuamente temos vindo a usar desde Newton e Descartes, os relativistas defendem uma nova nuance espistemológica que, basicamente, seja mais democrática. Indignados pelo positivismo, o reduccionismo, o cientismo, o determinismo, o mecanicismo, o fisicalismo... e outras tantas centenas de “ismos”, estes ilustres pensadores propõem, assim, através de uma retórica extremamente refinada – e apoiada em milhares de ismos alternativos que não os atrás referidos –, o verdadeiro e aclamado caminho da verdade, até agora impedido pelo dogmatismo (mais um “ismo”) dos cientistas ortodoxos (ou ortodoxistas, como queiram...).
Para uma ciência mais democrática, adopte-se então a trans-disciplinaridade! Muito resumidamente, trata-se de dar igual peso epistemológico e axiológico a todas as formas de conhecimento. Um cientista “trans-disciplinarista” deverá pensar da seguinte maneira:
“Os resultados das novas equações são extremamente pertinentes, mas contêm algumas dízimas de teor visivelmente comunista. Farei uma nova análise filológica do texto axiomático a fim de confirmar a inter-subjectividade deste tipo de partidarismo politico-geométrico, assumindo como sujeitos sociais e historicamente situados os próprios cálculos (instrumentos) e eu mesmo, e assumindo como objectos “exteriores” os resultados equacionais propriamente ditos. No final serei não só capaz de precisar as implicações lógico-matemáticas dos resultados como também os seus substratos emocionais e a relação “sujeito-objecto” que estabelecem comigo enquanto investigador de signo capricórnio com ascendente escorpião...”.


Cap. II
Contra a ciência ortodoxa – em busca da dignidade humana...

Infelizmente, a própria ciência tem dado um empurrão para que os adeptos da trans-disciplinaridade se convençam de que o seu paradigma está eminente: os maiores louros advêm-lhes dos chamados estudos da complexidade, que eles, por não compreenderem devidamente, fazem questão de extrapolar para todas as esferas do conhecimento, desde a botânica ao aconselhamento matrimonial. Este tipo de extrapolação é quase como um tipo perder o telemóvel pouco depois de se familiarizar com a incerteza de Heinsenberg e passar o resto do dia a procurar o dito cujo na mesma gaveta, abrindo-a e fechando-a interminavelmente à espera que as probabilidades fiquem a seu favor... uma mente ortodoxa, provavelmente, procuraria uma só vez em cada lugar (no meu caso, como sou muito despistado, não sou lá muito bom ortodoxo!).
O maior objectivo indirecto deste tipo de abordagem metodológica é o de restabelecer dignidade e dimensão humana ao homem. Aliás é compreensível o desespero dos relativistas epistémicos: em primeiro lugar a ciência convencional, com a sua hegemonia tirânica, canibaliza todas as outras formas de cultura e de racionalidade. E, de facto, se há coisa que passo a vida a ler no jornal é que biólogo tal fuzilou poeta tal ou que geólogo tal estrangulou impiedosamente cineasta tal, já para não falar da intimamente relacionada desconfiança de que Leonardo da Vinci era uma aberração hermafrodita!
Em segundo lugar, as verdades científicas são frias, cruas e desqualificam o homem, arrancam-no do pedestal e destituem-no de toda e qualquer dignidade. Nesse contexto, a inter e a trans-disciplinaridade mais não fazem que condimentar com carga espiritual e humana as verdades científicas. Um nadinha de antropocentrismo, multiculturalismo, esteticismo e misticismo não fará certamente mal a tais verdades, bem pelo contrário, até lhes confere cor e torna-as menos enfadonhas...


Cap. III
Um exemplo trans-disciplinar para a dignificação humana...

Um bom exemplo de trans-disciplinaridade é-nos oferecido por uma consequência possível do princípio antrópico, de que já falei num post recente a propósito da revista Maria. Ainda não tomei conhecimento de nenhum relativista pós-moderno que já se tenha apropriado deste caso particular para fortalecer os seus argumentos, mas, se ainda não os há, então não hão-de tardar!
Trata-se de uma (interessante) teoria cosmológica proposta por Lee Smolin para responder a algumas das implicações metafísicas do princípio antrópico forte. Segundo ele, pode ser que os buracos negros sejam “maternidades” de universos germinais com diferentes leis físicas. Assim, este universo pode ser visto como uma parideira assexuada que, por cada buraco negro que contém, dá origem a um universo descendente. Dos universos descendentes, por sua vez, só os que também contiverem buracos negros deverão deixar legado “cosmo-genético” e assim sucessivamente. Os universos mais aptos serão então aqueles cujas leis internas favoreçam maior descendência (ou maior número de buracos negros... quais vaginas celestiais, ainda por cima sorvedouras...).
A trans-disciplinaridade, neste caso, encontra-se na arrojada admissão, pela cosmologia, de preceitos darwinianos (tipicamente biológicos, portanto) para a sua lógica e refinamento próprios. Sem dúvida um cruzamento quase herético entre diferentes paradigmas... um autêntico santo graal para os pós-modernos.
A questão que coloco é a seguinte: de que forma a revolucionária e aplaudida teoria trans-disciplinar de Smolin contribui para restabelecer dignidade ao ser humano? Bem, arrisco-me a adiantar uma resposta: Desde Copérnico que a nossa cotação no panorama do cosmos tem vindo a baixar de forma dramática. De actores principais, colocados privilegiadamente no centro do universo, fomos sendo progressivamente relegados para os bastidores, e, agora, mais não somos que pó de estrelas à base de carbono, a que alguns já chamaram de agregados com forma de “macacos nús”. Uma condição indecorosa, sem dúvida! Por outro lado, esta nova teoria de Smolin argumenta que o carbono (de que somos feitos) é um ingrediente essencial para favorecer a existência de buracos negros, ao promover a transferência térmica dentro das protoestrelas (o que também justifica o princípio antrópico)...
Sendo assim, eis que já não somos mero pó de estrelas! Na verdade constituímos um precioso fertilizante cósmico, somos a modos que espermatozóides sidéreos! Digam lá que tal não é um pretexto monumental para a dignificação humana!...

sexta-feira, dezembro 05, 2003

Aquilo que já me chamam...

Às vezes encontram-se inusitados rasgos de genialidade nos meandros da blogosfera portuguesa. Muito recentemente, por exemplo, dei conta de que já há quem me chame “heliopsista” em vez de “solipsista”! Ora, um tal eufemismo pôs-me a meditar: se por um lado dei conta de quão brejeira é a minha denominação original de solipsista – tendo em conta que qualquer filósofo respeitável deveria abandonar o prefixo “sol” a favor de “hélio” para se manter fiel a boas etiquetas etimológicas – por outro lado, dei-me conta que a adopção de um termo tão inovador como o de “heliopsista” correrá o risco de desencadear um rol de mal entendidos e de graves imprecisões cosmológicas. Porque se queremos ser realmente minuciosos no aprofundamento deste contexto particular, então, se calhar, convirá ter em conta que não é o elemento hélio – mas sim o hidrogénio – que ocupa o pedestal na composição da nossa estrela. Portanto, caros leitores e amigos que me chamaram tal coisa, talvez devessem antes tratar-me por hidropsista. Aliás, garanto-vos, eu sou um excelente nadador...

O princípio antrópico

Não há princípio que me fascine tanto como o antrópico (a não confundir com entrópico – não é para aqui chamada a segunda lei da termodinâmica!). Ainda me recordo perfeitamente do dia em que tomei conhecimento deste princípio. Estava sentado num balcão de café a ler a secção de perguntas da revista Maria quando, inesperadamente, me saltou à vista a seguinte questão, colocada por um tal Elias H:
“Sou gay e sinto-me mal com isso, mas prezo muito a minha existência. Cara Maria, tento em conta o princípio antrópico, será que, se eu não fosse gay, ainda assim existiria?...”
A sexóloga respondeu à altura:
“Caro Elias, a sua pergunta pode ser lida de duas maneiras. Por um lado encerra em si mesma um grave paradoxo: repare que poderíamos reformulá-la do seguinte modo: “Será que, se eu fosse heterossexual, ainda assim teria nascido?”. Uma tal questão não passa de uma tautologia, e inviabiliza qualquer resposta que já não esteja contida na própria pergunta. Por outro lado, e tendo primordialmente em conta os desígnios do princípio antrópico, aquilo que lhe posso dizer é que o universo e todas as suas leis (que deverão reger, igualmente, a sua homossexualidade) são como são porque nós existimos. Teria bastado uma qualquer nuance mínima – por exemplo, uma diferente carga para o electrão, um omega diferente no momento da criação, uma ligeira discrepância em qualquer constante universal, até a própria eventualidade de o Elias ter nascido hetero – e eu já não estaria aqui a escrever esta carta ou você a lê-la. O princípio antrópico diz-nos que o mundo é como é porque nós existimos. Portanto, se preza a sua existência, sugiro-lhe que assuma a sua sexualidade de uma vez por todas. Cumprimentos da Maria.”

terça-feira, novembro 25, 2003

A impotência sexual e a filosofia

Com um título destes, arrisco-me a dar uma punhalada nas minhas próprias costas. Portanto, antes de mais nada, seja-me permitido salvaguardar a minha reputação: tal afinidade entre impotência e filosofia não se aplica à minha pessoa, ponto final! É certo que o habitat da blogosfera, por si só, não permite resolver este assunto com provas concretas; as empiristas mais acérrimas terão, pois, de confiar em mim com base na boa fé...
Não quer isto dizer que o princípio não se aplique à generalidade dos grandes pensadores modernos – e digo modernos porque convém, claro, excluir os clássicos (e talvez Foucault, convenhamos).
Não restam dúvidas de que pensar demais nunca foi muito útil na hora da verdade! Qualquer sexólogo subscreverá estas palavras... Da mesma maneira que o preservativo corta sensibilidade no membro de baixo, também o cérebro humano já vem revestido com essa inconveniente película protectora chamada cortéx cerebral. Para aqueles que nunca ouviram falar nela, é a responsável por não sermos tão directos e frontais (ou rectais) como os cães e outras bicharadas! Posto isto, compreende-se a nostalgia de alguns intelectuais enquanto sonham com sistemas límbicos nus e purificados!!
De facto, são polémicas as vantagens evolutivas de um tal capacete de tripas encefálicas, mas são, por outro lado, bem conhecidas as suas desvantagens na altura da festa. Aqui ficam meia dúzia de pensamentos que se adivinham da biografia íntima de grandes filósofos ao longo dos séculos:

Santo Agostinho: “Deus grandioso, perdoai-me pelos meus actos. Mas que faço eu em cima desta inocente mulher? Infame heresia a deste prazer que sinto e que dou! Como é indecorosa a tentação que estes gemidos inspiram!! Cala-te, putéfia! Não abras a boca, não confesses esse teu prazer vergonhoso! Ai de mim, sou o mais vil escravo das paixões ímpias! Meu Deus, salvai-me da imundície da libidinosidade, o rio negro da luxúria do inferno!! Deixai que me converta ao cristianismo apesar destes meus actos lascivos e asquerosos! Cala-te, putéfia! Fecha essa boca carnosa e ofegante! Não blasfemes! Ai de ti que engulas!"

Descartes:“Primeiro passo da dúvida metódica: Penso, logo existo.”
“Segundo passo: Deus existe porque é perfeito e a perfeição implica a existência.”
“Terceiro passo: Devo despir-me porque as roupagens são obstáculos duvidosos.”
“Quarto passo: Devo ficar erecto para que o coito seja viável.”
“Quinto passo: Depois de estabelecida a nudez e a erecção, devo sair para a rua em busca de uma mulher fértil.”...

Hume:"Os teus seios parecem duas deliciosas melancias, a tua vagina um cálice de vinho do melhor e o teu rabo assemelha-se a um bom naco de lombo assado ainda a fumegar. Os teus lábios são salsichas suculentas e..."

Kant: "Chego por via da razão pura à conclusão que o orgasmo é uma categoria tão universal como o tempo e o espaço. Enganem-se aqueles que não o consideravam uma entidade à priori! Aliás, como podes ver, já me vim e tu ainda nem te despiste!..."

Hegel:“Agora, para chegarmos ao espírito absoluto, basta fazermos uma síntese em condições. Deixa-me lá confrontar a minha tese com a tua antítese!”

Nietzsche:“Não te deixes enganar pelas mentes fracas, mulher! Sê a águia que reconhece a voz interior e que edifica a sua própria verdade! Vai ser criança, transpõe as mais altas montanhas, descobre-te a ti mesma, espalha a tua palavra! Vai, vai-te embora! Vai que eu tenho sífilis!...”

Marx:“Vocês são umas putas, é o que são!! Mercadorias!! Deviam era empacotá-las a todas e vendê-las na farmácia!”.

Darwin: “Cara Dulce: Recuso-me copular consigo, não é suficientemente opulenta e rosada para garantir uma boa descendência. Ao longe parecia um anjo, ao perto é um desarranjo. As minhas desculpas. Respeitosamente, Charles.”

Freud: “Face à constatação da tua virgindade, opto por colocar o super-ego à frente da líbido e não destruirei o teu futuro. Vai lá à tua vida, sobrinha!... Espera, só uma última coisa, vem cá: Sabes o que é um fellacio?..."

Sartre:"Sou, existo, penso, fornico logo existo... porque é que fornico? Não quero fornicar mais, eu existo porque penso que fornico, fornico porque penso que não quero existir, fornico porque penso que... existo porque... safa!!!"

terça-feira, novembro 18, 2003

Sobre as Guerras da Ciência. Boaventura vs Baptista...

Para aqueles que não sabem, o nosso conceituado sociólogo Boaventura de Sousa Santos escreveu em 1987 um livro intitulado “Um Discurso Sobre as Ciências” que, nos últimos anos, tem servido para alimentar a versão portuguesa das célebres “Guerras da Ciência”. À custa destas guerras hilariantes já me tenho divertido mais a ler filosofia que o cidadão comum a ver as notícias sobre o Iraque à hora do jantar. De facto, numa era em que as guerras se tornaram um objecto lúdico para as famílias ocidentais desanuviarem no entremeio das telenovelas, nada melhor que deliciarmo-nos com as mais inventivas guerrilhas retóricas por parte dos intelectuais de ambos os lados das trincheiras.
De um lado, portanto, os proclamados “Guerreiros da Ciência”, defensores da objectividade dos seus conhecimentos e da superioridade das estratégias científicas na demanda da verdade... do outro lado, no qual podemos encontrar o nosso Boaventura (não leves a mal, pá!), temos os valentes relativistas, apostados na desconstrução da ciência que acusam de totalitarismo, realismo ingénuo, e até de genocídio! Aqui em Portugal, eis os respectivos chefes de tribo:

Na equipa dos relativistas, Boaventura com o seu frémito de guerra:
“A ciência newtoniana-cartesiana é um desencanto desqualificador e indecente!!!! Somos escravos (Foucault, p.1244) da técnica e da ciência (Heidegger, p.456546)! Acorde-se desta ditadura intelectual! Fundam-se todas as culturas (Snow, p.324342). Venha a revolução paradigmática (Kuhn, p.456546)! Abaixo qualquer ciência que não seja pós-moderna e emancipada dos dogmas iluministas! Sejamos prudentes (Santos, p.34234) para uma vida mais decente (Santos, p.3425435)! Não rejeitemos toda a irracionalidade só porque ainda não foi racionalizada! O método científico não descobre o mundo, cria-o (Santos, p. 99999)! Postulem-se novas luas para que elas possam finalmente erguer-se no firmamento! Deêm-se cores mais alegres aos quarks, cores que não os desqualifiquem!!! Venha daí a alquimia para alegrar esse beco sem saída que é a química! A astrologia é tão válida como a astronomia! Viva a inter e trans-disciplinaridade (Prigogine, p.234543)! Não nos precipitemos a desvalorizar a quirologia e o tarôt, aprendamos a conciliar esses preciosos conhecimentos transversais ao decadente método positivista e sirvamo-nos deles para responder às inconsistências das teorias das supercordas e aos hiatos das VSL! Resgate-se o espiritismo (Kardek, p.4325235) para animar os nossos espíritos decepcionados (Benjamim, p.345436). Voltemos a ter olhos de criança (Nietzsche, p.43534) perante esse mundo fértil e fascinante que desde Sócrates temos vindo a desacreditar!!... Bem hajam os novos sofistas!”

Na equipa dos “Guerreiros da Ciência”, temos como líder nacional o físico António Manuel Baptista, que vai resistindo heroicamente, ainda que já com berrante desespero. Brada ele:
“Cuidado! Eles andam aí! O rei vai nú, o rei vai nú!!! Não acreditem no que eles afirmam, são meros profetas da Nova Era disfarçados de jargão retórico! Tudo o que dizem é merda sofisticada! Deitemos a baixo esses filhos da puta! Ladrões de fundos e investimentos! Já nos roubaram o super-acelerador de partículas americano, o que virá a seguir? Temos lá culpa que as ciências sociais sejam truncadas e deficientes, temos lá culpa que a filosofia esteja morta, temos lá culpa que as ciências naturais (particularmente a física) gozem deste sucesso indiscutível que se vê? É inveja, não passa disso! Dizem esses alarves que as leis científicas são meras convenções sociais!! Deixem-me rir! Se as leis da aerodinâmica estão erradas porque é que os aviões não caem? Se as leis de Newton são pura convenção porque não se atiram esses gajos do vigésimo quinto andar (Sokal, p.546456)? Digam-me lá! Desafio-vos a atirarem-se todos da minha varanda! Ponham-se em fila! Venha o primeiro que diga que a gravidade só existe na minha cabeça!!! Cabrões...

quinta-feira, novembro 06, 2003

O livro do Boaventura é maior que o do Baptista.

Perguntaram-me:
“Ó solipsista, mas afinal tu és mesmo solipsista – essa gigantesca alegoria da idiotice – ou és como as freiras, que apregoam mas não praticam?”
Respondo:
“Caros amigos, o solipsismo é uma doutrina filosófica muito complexa! Se for mal compreendida, parecerá estar sempre a contradizer-se a si própria. Mas é justamente aí que estão os loiros (e as loiras) da filosofia em geral: Se nos acusam de estarmos errados, podemos sempre declarar que não fomos bem interpretados e explicar a coisa de outra maneira. Pegue-se, por exemplo, no recente livro do Boaventura de Sousa Santos em resposta às acusações de falácia intelectual que o António Manuel Baptista, tão oportunamente, lhe dirigira há quase dois anos. O livro tem quase 800 páginas e só assim consegue dar resposta a perguntas tão simples como “Ó BSS, meu grande anormal, que queres tu realmente dizer com ‘todo o conhecimento (sic!) é auto-conhecimento (sic!)’?”.
Na verdade, não é no conteúdo do livro megalómano que estão as respostas mas na grossura do mesmo. Uma questão de dimensões e outros traços de virilidade, em nítida concordância, aliás, com pareceres pipianos que aqui, indirectamente, subscrevo. Genial a forma como Boaventura e os seus aliados internacionais conseguem tecer páginas e páginas e páginas e páginas de deambulações e erudições de tal modo extensas que fazem esquecer as questões iniciais. Ora é exactamente essa aptidão que dita os grandes filósofos da actualidade: a capacidade de muito dizer sem dizer nada. Arte complicada por excelência, mais ainda que a literatura, já que nesta última, pelo menos, assumem-se as ficções...
Portanto, em resposta à pergunta que me foi feita.... mas qual era mesmo a pergunta?...

terça-feira, novembro 04, 2003

Se o papa morre tá tudo fodido!...

Na luta secular entre os criaccionistas e os evolucionistas, os segundos parecem estar a ganhar pontos: em primeiro lugar porque o papa está a dar as últimas e duvida-se que qualquer outro consiga aguentar tanto atentado ou coça divina. Procuram-se por aí, desesperadamente, cardeais capazes de darem abraços a quem lhes deu tiros ou que falem línguas mortas como o português! Candidatos ao título papal que saibam, como este soube, fundir o princípio da incerteza de Heisenberg com o livre arbítrio teológico; que saibam acolher tão convenientemente o big bang por requisitar manejo divino (ainda que só no momento da criação, porque milagres, nem vê-los); que consigam segurar tão heroicamente uma religião monoteísta – e como tal enfadonha e pedante – sem Bacos ou deusas do amor ou teodiceias decentes; e, sobretudo, que saibam sobreviver ao ocidentalismo e à poligamia neo-hippie...
Não haja dúvida que vai ser complicado arranjar um substituto à altura. Problemas semelhantes enfrenta a Lucas Arts com o futuro do Indiana Jones por causa das rugas do Harrison Ford, sujeita a denegrir mais uma doutrina, como aliás se fez com o James Bond...
Em suma, quando o papa morrer, vai ser como obrigarem a coca-cola a mudar a cor do emblema de encarnado para cor de rosa, o que não é lá muito boa política num ambiente de capitalismo neo-liberal como este que se vive. Uma solução seria submeterem o papa aos modernos métodos de criogenia, mantendo-o emoldurado à frente das multidões enquanto os porta-voz sucessivos se encarregariam de passar a sua palavra (que, felizmente, não requer actualizações frequentes); aliás, de certa forma, é já isso que se passa, ainda que de um modo mais subtil; todavia, fazê-lo literalmente poderia dar azo a questões éticas acerca da vida eterna, claramente antagónicas da moral católica...
Em segundo lugar o criaccionismo tem vindo a murchar por razões tão místicas como o próprio catolicismo. São os novos rebentos new-age (eles não gostam que lhes chamem isso, chamemo-lhes então espiritualistas), despertos pela chegada da Era do aquário e, claro, pela massificação da ganza! Proclamam que os espíritos estão no limiar de um novo patamar, que a verdade sagrada ainda há-de vir, em fascículos, pelas mãos psico-grafistas de médiuns incorporados, que Jesus era um extraterrestre e que o sexo tântrico é a salvação. Já não se davam rombos destes na instituição católica desde que a bíblia foi traduzida do Latim!
Perguntarão alguns: Então e o evolucionismo? Não terá ele mérito próprio? Estará ele em vantagem só porque o adversário entrou em crise? Não é realmente verdade que Darwin descende dos macacos? Meus caros, não sejamos dogmáticos! Façam como o Bush, dêem às crianças a possibilidade de escolherem a via educativa que mais desejarem. Se elas quiserem, seja-lhes ensinado que somos pó de estrelas e que a vida não faz sentido; ou, se preferirem, seja-lhes incutido que o mundo foi feito em sete dias e os dinossauros já nasceram fósseis... vai dar ao mesmo! Para um bom pós-moderno, não passam de nuances epistemológicas igualmente válidas... uma questão de gosto meta-estético.

Questão para colocar aos teístas...

Passei os últimos quinze dias vidrado na seguinte questão: “Será Deus capaz de criar uma rocha tão pesada que ele próprio não possa erguê-la?” Depois de meditar bastante nesta frase chego à conclusão de que é mais herética que usar preservativo no vaticano!... Porque vejamos, qualquer que seja a resposta, há sempre alguma coisa que Deus não consegue fazer: Ou não é capaz de criar a pedra, ou não consegue levantá-la! Machadada fodida no princípio da omnipotência....
Desde que contei isto à minha mãe ela deixou de ir à missa! Menos um...

segunda-feira, outubro 13, 2003

O FIM DO MUNDO (ainda faltam dez anos, calma!)

Um outro meu compadre de longa data, especializado em “teleologia new-age”, apareceu recentemente com uma teoria preocupante: Diz o Elias H. (H de Hegel, como ele tanto gosta de sublinhar) que, no ano 2014, um NEO – near earth object – do tamanho do Texas vai colidir com a península Ibérica num choque de tal ordem que, no mesmo instante, o pessoal nos antípodas, só com o coice inicial, há-de ser projectado para fora da atmosfera. Os portugas e os espanhóis, ou arranjam uma forma de se esquivar ao estilo da Jangada de Pedra do Saramago, ou então serão os primeiros a levar com o asteróide nas testas. Jangada essa que, aliás, não lhes serviria de grande coisa! Este cataclismo será ainda pior que o da extinção do Câmbrico!! Sobreviventes, só mesmo as baratas, alguns microorganismos extremófilos e, claro, a administração Bush, escondida num bunker subterrâneo à moda de Zion!
Afirma o Elias que, tal como Kekulé descobriu a estrutura atómica do benzeno num sonho, também ele recebeu a informação por via onírica, vislumbrando um cometa gigante a morder a sua própria cauda em redor deste frágil planeta...
Todavia, o que realmente apoquenta o Elias não é o fim mas o recomeço! Como bom neo-darwinista (para não dizer neo-nazi), ele acredita que a catástrofe é já esperada e desejada pela elite americana, que dela fará uso como forma natural para conseguir o que com Hitler ficara pendente. Para Bush, porém, a “solução final” será, justamente, não fazer nada. O Elias está plenamente de acordo, mas tem receio que não lhe arranjem lugar no bunker...

quarta-feira, outubro 08, 2003

Fraude!!!

No meu pacote de chicletes trident vem escrito que contém sorbitol, manitol, xilitol, antioxidante E321, aromatizantes, estabilizador E422, emulsionante E322, acesulfame K, aspártamo e uma fonte de fenilalanina. Em contrapartida, o meu maço de tabaco veio hoje a dizer em letras gordas que “contém benzeno, nitrosaminas, formaldeído e cianeto de hidrogénio”. Ainda tentei mastigar um cigarro mas não me soube a nada...

segunda-feira, outubro 06, 2003

Prato do dia: Machismo, constructivismo social, cosmologia e vaginas celestiais...

Apesar da emancipação exponencial da mulher desde a invenção da pílula, a desigualdade entre os sexos mantém-se em vários sectores, inclusive no próprio uso da linguagem. Por exemplo, a palavra touro pode significar “homem forte” enquanto a palavra vaca significa “puta”; um menino de rua significa menino pobre, sem abrigo, enquanto uma menina de rua significa puta; um vagabundo é um homem sem trabalho, uma vagabunda é uma puta; um puto é um miúdo, uma puta é... uma puta!! Podia continuar indefinidamente com outros exemplos, mas deixo isso para pensadores na esteira de Moore e Wittgenstein....
Ao longo do século XX, tem emergido uma nova vaga de intelectuais apostados (ou apostadas) em delatar os sintomas machistas mais subtis que ainda resistem em diversas esferas da sociedade, inclusivamente na própria instituição científica. São elas as chamadas feminalistas, ou feministas. Estas jóias (que raramente são fisicamente atraentes, já se esperava!) têm feito poderosas alianças com a revolucionária frente relativista pós-moderna, em defesa de ideias como: a evidência empírica é desnecessária, a verdade objectiva é inexistente e a ciência é um instrumento totalitarista nas mãos dos capitalistas e dos dominadores masculinos!! Sandra Harding, por exemplo, declara de pés juntos e pernas trancadas que a ciência moderna (e especialmente a física) “é não só sexista mas também racista, “classista” e culturalmente coerciva!”. Esta autora encara os “Principia” de Newton – provavelmente o mais importante livro científico de todos os tempos – como um “manual de violações”, tais são as perversões machistas que lá se encontram! Juntamente com amigas como Carolyn Marchant e Evelyn Fox Keller, a encantadora Harding proclama ainda que “as metáforas sexistas desempenham um papel importante no desenvolvimento da ciência moderna.” Trata-se, segundo ela, de uma espécie de “estupro marital, o marido como cientista forçando a natureza a satisfazer os seus desejos.”
Ou seja, as ciências naturais não só são meras construções sociais (como defendem os pós-modernos) como são trabalhadas com partidarismo machista.
Luce Irigaray, outra da mesma laia, vai ainda mais longe e faz notar a estranha fixação que os matemáticos têm por espaços curvos... e que dizer de termos como “buraco negro”, pergunta ela? Minha cara Irigaray, já agora porque não chamar-lhes protuberâncias do espaço-tempo alongadas ao infinito? E porque não alcunhar as singularidades de orgasmos cósmicos? Porque razão só em Vénus (o único planeta com nome de deus feminino) é que chove ácido sulfúrico? E que dizer das conotações pedófilas de fenómenos como “supernovas”?... Será o big-bang uma viril ejaculação divina?...

sábado, outubro 04, 2003

Do meu diário nos tempos de estudante de física (a pior fase)

10/10/96
Caro Ptolomeu:
O problema da física quântica é que pura e simplesmente não faz sentido. Quer dizer, tudo indica que esteja correcta (pelo menos o meu computador funciona às vezes); o problema é que ainda ninguém conseguiu realmente enfiá-la na cabeça. É um pouco como um burro a olhar para o palácio. Talvez nos reste seguir o conselho do Feynman (um gajo porreiro) e engolir a natureza como ela realmente é: absurda...
11/10/96
Caro Ptolomeu:
Ultimamente tenho andado a entreter-me com estas questões e, por mais burro que me sinta, não me rendo ao palácio! Há muito por onde pegar na abordagem a estes conceitos demasiado pesados para o cérebro humano. Vai-me valendo a matemática; pelo menos nos números, mesmo não compreendendo intuitivamente o significado dos resultados, posso ainda assim partir do princípio que estão certos, desde que use calculadora e respeite os limites lógicos deduzidos por Godel, esse grande desmancha prazeres. Bem feito o que lhe aconteceu: morreu à fome com medo de ser envenenado! Nem o John Nash lhe chega aos calcanhares!!
12/10/96
Caro Ptolomeu:
Os últimos dias têm sido dolorosos: páginas e páginas de equações: Hoje, pela primeira vez, larguei a álgebra por alguns momentos e aventurei-me na topologia mas ainda não consegui provar que o universo tem a forma de um donut. O problema está nas dimensões adicionais: em 10 dimensões os donuts são indigestos....
13/10/96
Caro Ptolomeu:
Acho que consegui provar que a física quântica e a teoria da relatividade são comutáveis: Uma é demasiado relativa e a outra demasiado incerta... ou vice-versa. Vou desenvolver este raciocínio para conciliar a força da gravidade com a força electro-fraca. O Weinberg vai ficar contente...
14/10/96
Caro Ptolomeu:
A teoria M é um beco sem saída. As VSL é que estão a dar. Parabéns Magueijo!! C é variável mas, evidentemente, a inflação mantém-se, pelo menos no que respeita ao preço do tabaco. Últimos dados do COBE são decisivos para novas conclusões. Já pressinto a TOE nas minhas mãos. OVER.
15/10/96
Caro Ptolomeu:
Os últimos dados deram para o torto. Não pesco nada. De supercordas só mesmo a do meu companheiro de quarto que apareceu enforcado esta manhã. Sei que andou a ler os meus apontamentos mas não me sinto responsabilizado...
16/10/96
Caro Ptolomeu:
Hoje comecei a meditar sobre a experiência da dupla fenda de Young. Consegui arranjar uma pressão de ar e o meu quarto tem, de facto, duas janelas, mas não consigo fazer com que as balas se comportem como ondas. Por consequência, não saem nem por uma janela nem pela outra. A vantagem deste resultado é que não parti nenhum vidro. A parede arranja-se com um bocado de estuque.
17/10/96
Caro Ptolomeu:
Tem-me fascinado particularmente o problema do gato de Schrodinger. A minha questão prende-se com a possibilidade de criar estados de sobreposição quântica no ser humano. Estou a trabalhar numa experiência em que eu próprio servirei de cobaia. Já arranjei um caixote suficientemente grande; agora só me falta a ganza e um cúmplice para pôr a experiência em prática.
18/10/96
Caro Ptolomeu:
O meu amigo Frederico ofereceu-se como ajudante. E ofereceu-me um cú de sabonete bem generoso. Portanto, eis a minha ideia: esta noite vou fumar ganza suficiente para que haja exactamente cinquenta por cento de hipóteses de sobreviver. A seguir fecho-me no caixote e logo se vê o que acontece... se os meus cálculos estiverem correctos, o meu cogito transformar-se-á numa função de onda e espalhar-se-á por todas as histórias possíveis do cosmos. Enquanto ninguém abrir a caixa, estarei vivo em alguns universos, morto noutros tantos, e há-de haver alguns em que serei milionário. Até sempre...
25/10/96
Caro Copérnico:
A experiência não correu como eu esperava: Enfiei-me lá dentro e acendi o charuto como previsto, mas a dada altura perdi a consciência e não me lembro de mais nada. Acordei hoje, sobressaltado, quando o Frederico abriu o caixote. A questão que se coloca é: terei eu deixado de existir enquanto a caixa estava fechada? O enigma mantém-se.
26/10/96
Caro Ptolomeu:
Por favor, perdoa-me aquilo que te chamei ontem! Deve ter sido da ressaca. É lógico que o modelo heliocêntrico está errado...